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  • Revista Alagoana

A alma da palavra e a poética da imagem



Coluna de Jorge Vieira




Em 9 de maio de 1816, usando uma caixa de madeira, o francês Joseph Nicéphore Niepce conseguiu, pela primeira vez na história, gravar uma imagem numa folha de papel sensibilizado quimicamente.


Como o processo demorou horas, o resultado não foi um retrato da realidade. O movimento da Terra fez a luz natural incidir em lados opostos, de modo a deixar a imagem intrigante, irreal. E em sua primeira aparição, a Fotografia já mostrou que veio para ir além do visível. Nessa dinâmica, a fotografia se aproxima da literatura. Vejamos o que diz Clarice Lispector (1920/1977): “Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra [...] o que te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. [...] O que te digo deve ser lido rapidamente como quando se olha.”


Clarice parece sugerir que “fotografa” a imagem que apresentará em poema, no que sinaliza transitar num universo além do óbvio, onde habita a subjetividade da palavra e, conseguintemente, da imagem. E aponta a instantaneidade, típica da fotografia, como critério para a leitura da palavra poética.

Na estreita relação da imagem com a palavra, no campo da poética, o poeta mexicano Octavio Paz (1914/1998) assim conceitua a poesia: “é algo que entra pelos olhos e não pelos ouvidos”, alinhando-se às percepções de Lispector. E ele avança nessa proximidade com o pensar da escritora brasileira nascida na Ucrânia, afirmando e explicando a razão de ser a Fotografia uma arte poética, ao dizer: "A imagem poética é sempre dupla ou tripla. Cada frase, ao dizer o que diz, diz outra coisa. A fotografia é uma arte poética porque, ao nos mostrar isto, alude ou apresenta aquilo. Comunicação contínua entre o explícito e o implícito, o já visto e o não visto. O domínio próprio da fotografia, como arte, não é diferente do da poesia: o impalpável e o imaginário. Mas revelado e, por assim dizer, filtrado pelo visto."

À instantaneidade a que sugestivamente se refere, Clarice deu o nome de “instante-já”. É a fração de tempo e de espaço em que se tenta, de qualquer forma, apreender, conseguindo ou não capturar a beleza ou sentido de um momento passado. Se na literatura, tal fenômeno pode ter maior dificuldade de ser conquistado, por meio de uma leitura não rápida e pouco descritiva de fatos e imagens, a fotografia não teria mais sucesso na tentativa de capturar esse desejo do “instante-já”?


A pergunta a ser feita, então, é: o que fotografei é passível de ser fraseado em palavras?

Respondendo pergunta inversa, “veja” o trecho do poema musicado de Chico Buarque, “O meu guri”, quando ele “fotografa” com palavras uma cena nacional.

“Quando, seu moço, nasceu meu rebento

Não era o momento dele rebentar

Já foi nascendo com cara de fome

E eu não tinha nem nome pra lhe dar

Como fui levando, não sei lhe explicar

Fui assim, levando, ele a me levar

E na sua meninice

Ele um dia me disse que chegava lá”


Palavra e imagem não se antagonizam, antes, se completam, pelo que é possível, sim, fotografar com poética. Caminho para isso é o desenvolvimento do Olhar autoral, tema que traremos em breve.








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