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  • Revista Alagoana

A ruptura nas vidas atingidas pelas rachaduras da exploração

Atualizado: 13 de dez. de 2020



Coluna de Jorge Vieira


“Desde o início da década de 1980 ouvia críticas à implantação da indústria de exploração do sal-gema, no Pontal da Barra, bairro litorâneo da cidade de Maceió/AL. Argumentava-se a favor tendo em vista a geração de empregos e a necessidade de modernização do parque industrial alagoano. Por causa dessa escolha, o crescimento urbano da cidade foi deslocado para a porção norte da capital (...). Veio o problema dos vazamentos, e eu me lembro de ter passado, com olhos ardendo, sem respirar, pela faixa de terra que ficava por trás das indústrias envolta numa nuvem amarela (...). Agora, os desabamentos. Hoje, parece óbvio que o subsolo escavado acabaria cedendo e levaria consigo o que estivesse por cima. Até mesmo a lagoa se inclinou num verdadeiro cataclismo.”


Esses são trechos do depoimento de Francisco Oiticica Filho, um dos doze fotógrafos que integram o projeto Ruptura, que nasceu da inquietação pela perda de visibilidade durante a pandemia da covid-19, da tragédia socioambiental e econômica que atinge os moradores dos bairros afetados pelas rachaduras provocadas em função da exploração do subsolo pela mineradora Braskem.


Entre julho e outubro deste ano, esse grupo de fotógrafos percorreu os bairros do Pinheiro, Bom Parto, Mutange e Bebedouro, registrando, com olhares independentes, as marcas dessa ruptura que se abateu sobre as vidas de quase 40.000 pessoas. Em sua maioria é gente simples, que adquiriu à custa de muito suor o direito de ter uma moradia digna. As imagens são desoladoras e traduzem a angústia de uma perda irreparável, cujas “compensações financeiras”, como estão sendo chamadas as indenizações, não preenchem as rachaduras nas memórias afetivas que estão sendo deixadas para trás.



O projeto Ruptura apresenta noventa e seis fotografias em grande formato, que estão expostas, como intervenção urbana, em dois pontos estratégicos das áreas afetadas (Pç. Lucena Maranhão, em Bebedouro e Rua José da Silveira Camerino, no Pinheiro), e também no site, onde também são vistas biografias e depoimentos dos fotografistas.


Oportuno ressaltar que o projeto Ruptura cumpre um dos importantes papéis da fotografia: o de levar a seus observadores a possibilidade de pensar sobre si mesmos e sua condição social, cuja conscientização os torna capazes de agir sobre os rumos da história.




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