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  • Revista Alagoana

Alguns corpos nunca experimentarão o amor de forma horizontal



Coluna de Madson Costa



O amor cura, diz a filosofa negra bell hooks, em seu artigo “Vivendo de amor”. Contudo, apesar disso, todos os corpos conseguem saber o que é o amor? Nesse contexto, existem corpos à margem do que é aceitável para conhecer o amor, ou, pelo menos, experimentá-lo de forma horizontal. A horizontalidade, nesse sentido, surge como espaço onde há dois, lado a lado, onde dois corpos estão um ao lado do outro no intercâmbio de emoções e sentimentos, doando e recebendo, já a verticalidade representa um esquema onde um corpo está no topo e outro embaixo. A horizontalidade do amor não é para todos, nem todos os corpos saberão o que é ser amado, simplesmente pelo fato de não atingirem o nível mínimo necessário para senti-lo, corpos marginalizados são marginais porque estão à margem de tudo — até mesmo à margem dos que são amados.


O periférico, o feio, os heterodoxos ainda se constituem enquanto corpos, mas, nesse caso, como corpos que pouco provavelmente saberão o que é ser amado de forma horizontal, estes corpos são aqueles que são escondidos, colocados debaixo dos panos, em um esquema relacional tóxico, que os esconde ou simplesmente não os percebe como seres passiveis de amor e ternura. Tristemente, nesse contexto, aquele que não cabe na horizontalidade deve submeter-se ao vertical, a estar debaixo de alguém para simplesmente ter acesso ao desejo, a volúpia, migalhas de amor ou qualquer elemento negado para os marginais. O corpo-negado está em todos os lugares, está nas praças á noite, sob cobertas finas no frio, está nas esquinas da madrugada sob forma de subsistência forçada, está ao seu lado, ao se redor em todos os momentos, o corpo gordo, trans ou deficiente.


Reconhecer é difícil para aquele cujo corpo é fonte de desejo, de cobiça, de modo que o horizontal está sempre lá ou o vertical, para si, seja a ponta, não o fundo. Esse funcionamento da verticalidade e horizontalidade é triste, contudo é o algo que parte da própria essência do que é ser humano, desejar o que é desejado por todos, o que é simétrico ou belo é algo inerente à espécie que aprecia o belo acima de todas as coisas. E o belo é o ponto vital para a horizontalidade, o belo segue uma fórmula, a fórmula dos que estão em cima, já o feio segue a formula da oposição, do contraste, do marginal. Nesse contexto, essa oposição cria corpos que são incapazes de receber o amor horizontal, pois não cumprem os padrões mínimos para o amor, dessa forma resta a eles apenas as migalhas e a verticalidade.


Sim, existem padrões para ser amado, alguns corpos jamais serão amados, e caso não tenha percebido, é simplesmente porque você não é um deles. A ausência da ternura, as violências simbólicas e corpóreas criam corpos duros e tristes, numa sociedade onde tudo já está impossivelmente triste demais, ainda mais triste quando sabemos que alguns não sentirão o mais básico. O objeto de desejo do outro é o que sempre esteve em falta em sua vida. O horizontal, o vertical, o feio e o belo existem porque é o homem necessita criar categorias para interpretar a vida e seus fenômenos, de modo que aquilo que não está inserido na categoria do que é entendido como bom passa a ser rejeitado, ou seja, posto na categoria do evitável e indesejável.





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