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  • Revista Alagoana

CULTURA COMO POLÍTICA PÚBLICA

Atualizado: 10 de out. de 2020


Texto de Lícia Souto


O processo vagaroso de entendimento da cultura como política pública por parte do Estado brasileiro perdurou por muito tempo. Somente a partir da redemocratização (1985), no governo do então presidente José Sarney, foi criado o Ministério da Cultura, que antes fazia parte da pasta de Educação. E, então, no governo de Fernando Collor, regrediu novamente a Secretaria, para depois, no governo de Itamar Franco, retornar à condição de Ministério. Somente ganhou folego na gestão de Gilberto Gil (2003-2008), produtor cultural e político.

Esse período é considerado por Marcos Sampaio, diretor de Políticas Culturais na Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC), um divisor de águas para alcançar esse entendimento por parte do Estado, de que a cultura é sim uma política pública.


“O direito cultural é um direito humano, tanto um direito de quem produz como um direito de acesso por parte da população a essas manifestações”, disse durante participação no evento Semana Unit da Cultura Popular, realizada em 21 de agosto de 2019, com o apoio da Prefeitura de Maceió por meio da FMAC. Durante o evento que reuniu Mestres da cultura popular, estudantes e o diretor da FMAC, Sampaio explicou que no caso de Maceió, especificamente, a definição de uma política cultural para a cidade começa a partir de 2013. Quando havia uma demanda reprimida dos grupos culturais - que é imensa – e tornou-se evidente a necessidade de criar uma agenda que pudesse contemplar os grupos, mesmo que cultura ainda detenha o menor orçamento dentro da estrutura de governo municipal.


“De qualquer maneira, nós começamos a estabelecer um diálogo com as pessoas que atuam nessa área para que pudéssemos trabalhar um arcabouço de política cultural, e que garantisse a esses grupos remuneração; nenhum grupo se apresenta sem cachê, isso é fundamental para incentivar a formação de novos grupos e garantir a sustentabilidade deles”, afirma o diretor. Tendo em vista essas demandas, o presidente da FMAC, Vinícius Palmeira, junto ao prefeito de Maceió, Rui Palmeira, lançaram em agosto um edital destinado à produção de novos figurinos para folguedos, que contemplará 20 grupos alagoanos com uma ajuda de custo no valor de R$ 5 mil reais.


PRAÇA DOS FOLGUEDOS


O som dos tambores, dos atabaques e das contas nos instrumentos de xequerês irrompeu o silêncio na Praça Marcílio Dias, de frente para o mar que banha Jaraguá. “Em cada baque que entoa, vibra igual um trovão, estronda nos quatro cantos, o som da sua percussão”, enuncia o canto escrito por Régis Curió. Sem timidez alguma, o som do Maracatu Baque Alagoano parecia preencher o espaço e vibrar por todos os corpos, uníssono. Assim começou a noite de sábado do dia 24 de agosto. O Baque Alagoano aqueceu com uma breve passagem de som, mas já mostrando para que veio. Aos poucos, a Praça Marcilio Dias foi enchendo, de som e de gente, e tomando forma do que mais tarde viria a ser a 1º Edição da Praça dos Folguedos.


As simpáticas senhorinhas de saias longas abriram a noite de apresentações com uma reverencia a cultura local, e depois cantaram as tradicionais peças líricas das Baianas do Pontal, já conhecidas como marchas de entradas para abrir festividades.

Depois, o pequeno palco foi ocupado por homens e mulheres em trajes típicos da Marinha brasileira. Os Fandangos são uma das mais antigas e representativas expressões de Alagoas, especialmente por trazer em seu repertório cantigas náuticas, que preenchem a mente de que os ouve com odisseias marítimas dos navegadores portugueses.

Ao final da apresentação dos Fandangos, a pequena arena coberta virou palco e as pessoas abriram espaço para caber o grupo Coco de Roda Paixão Nordestina, que iniciou prestando uma homenagem ao estado de Pernambuco, como percursor do ritmo que chegou até aqui, estado vizinho, e assumiu sua própria identidade.




A roda se formou: dançarinos em dupla e pisadas agitadas, fortes o bastante para que quem estivesse ao redor pudesse sentir, sob os próprios pés, o chão estremecer. Teve quem se balançou, quem arriscou passos e quem sabia sambar quase tão bem que parecia fazer parte do grupo. Depois, os dançarinos sentaram no chão para realizar uma brincadeira, o líder do grupo fez uma competição para saber qual dançarino conseguia remexer melhor, e o público avaliaria o desempenho de cada um com uma salva de palmas, quem remexesse bem o bastante, ganharia a atenção e as palmas da plateia. O Bumba-Meu-Boi Cobra Negra já é conhecido de outros festivais, mesmo assim encantou a todos com suas cores e rodopios em direção a plateia. Mas prendia, sobretudo, o olhar das crianças, que acompanhavam atentas a imitação do boi, um animal um tanto indomável, mas que nessa fantasia passa pela plateia fazendo reverências ao público que lhe aplaude e até permite que passem as mãos sobre as pedrarias que o adornam.


Os integrantes do grupo anfitrião da noite carregavam em si as cores da bandeira de Alagoas – azul, branco e vermelho – nas tranças, nos trajes e nos instrumentos. Mas o que mais chamava atenção era o espirito de coletividade entre os grupos. Com uma chuva teimosa que vinha forte e após minutos cessava, a pequena arena delimitada para as apresentações ficava coberta de lama. Mas entre uma apresentação e outra, os integrantes dos grupos pegavam rodos, desses simples que se usa em casa, e puxavam o barro para abrir espaço para as apresentações.


A cooperação também vinha do público, que se apertavam embaixo das áreas cobertas e folhagens das arvores para dividir espaço com quem se apresentava. Teve até quem não se importou em assistir embaixo da chuva. Estavam todos ali, juntos, para acompanhar algumas das mais antigas, tradicionais e envolventes expressões populares.

A Praça dos Folguedos veio também para lembrar que, afinal, a cultura é feita pelas pessoas para as pessoas. É o povo que costura à mão o vestido, que afina os instrumentos, que cola as pedrarias, que ensaia os passos que mantêm o ritmo que atravessa gerações, que conta a cada batida de tambor um pedaço da nossa história, do imaginário popular.


O Baque Alagoano recebeu os grupos e o público e também encerrou a noite, tocando vibrante e fervorosamente para uma praça lotada, à frente do grupo o ritmo é guiado por Andressa Figueirôa, que compartilha a maestria do grupo há 6 anos com outros dois integrantes, Rômulo e Marcelo. Andressa parece confiante e gigante à frente do Maracatu e perto de Maria Luiza, sua filha de 3 anos, que também participa do grupo.







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