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  • Revista Alagoana

Escrever por imagens nossas, com Lisley Nogueira



Texto de Nathália Bezerra




Nathália - Quanta felicidade em te receber pra termos essa conversa escrita durante a semana, Lisley. hoje tive um domingo um pouco atípico, mas vi tons de amarelo que não vejo em outro lugar. gosto da forma como as cores, os lugares e as pessoas ao redor trazem contornos também ao que se escreve. ou talvez o ato de escrever seja parte de observar o mundo mais devagar? me conta um pouquinho de como é pra tu a relação com a escrita e as coisas que te arrodeiam, ou do que mais aparece na tua escrita?


Lisley - O prazer é todo meu! Agradeço o lindo convite e parabéns pelo trabalho inspirador. Bem, minha relação com a escrita sempre foi muito estreita e intensa. Ainda que encarar o papel em branco seja desafiador, eu sempre escrevo quando quero dar um “zoom” na vida.

Alguma situação, alguma reflexão, qualquer coisa que me atravesse, que me exclame e eu sinta a necessidade de conversar através dos versos.

Por ser também artista visual, esse “zoom” pode vir em cores ou de repente por uma imagem específica, por uma memória, por uma música, um lugar e é essa imensidão que me instiga.


Por outro lado, gosto de observar não só as coisas, mas principalmente as pessoas, no sentido de aprender, evoluir, transitar por ideias diversas, opiniões diversas, questionar essas ideias, que muitas vezes, enriquecem e lapidam a nossa maneira de escrever.

Comecei a me dedicar mais à escrita há mais ou menos cinco anos, a partir das oficinas de escrita criativa promovidas pelo SESC -Al. Foi lá que pude experienciar a complexidade e ao mesmo tempo, a magia de poder me expressar em poesia ou prosa.


Esse ato de fazer da arte como um jeito de ver de perto as coisas miúdas da vida é algo que também me toca muito. fico encantada nas diferentes formas de contar, e mais ainda, de ouvir uma história. acho que escrever envolve muito de fazer as palavras circularem, de fazer histórias habitarem por outros cantos. nas tuas aventuras entre poesia e prosa, como tem sido? como são teus modos de passear entre elas e como (ou se) de alguma forma tu percebe tua escrita entre as duas? (pergunto isso porque gosto demais de ouvir a forma como a narrativa e a poética se expressam e se desenham na gente)


Amei essa pergunta! Quando eu me pego escrevendo um poema, é sempre algo mais lírico, mais pessoal, por mais que eu tente me distanciar dos versos, sempre haverá algo que me corrói por dentro, que me inquieta, escrito ali.

Nos contos eu sou mais expansiva, gosto de projetar, inventar, extrapolar. Há um traço na minha escrita que eu reconheço e assumo. Sou meio econômica, sucinta. E isso vale para poesia ou prosa. Porém, o momento de escrever não tem muito mistério não. Há períodos em que eu leio mais poesia, isso me faz querer escrever em versos, o mesmo acontece quando estou com a prosa. Não é nada tão metódico. Se houver o insight, eu tento pôr no papel. De um jeito ou de outro (risos).


Me desperta muito a curiosidade sobre esse ponto, porque toda vez que converso com pessoas que escrevem gosto de ouvir como é a experiência com os diferentes tipos de texto. particularmente, eu tenho bastante dificuldade de me aventurar em contos e em escrita em prosa. não sei se pela ideia de criar um cenário, de inventar personagem. acho que quando se escreve em ambos (prosa e poesia), talvez seja um exercício que apesar de passar por dois de gêneros textuais, ainda deixa a marca de um estilo. como é teu processo criativo diante da invenção desses elementos que passam pela escrita da prosa, e como te aparece, na poesia, essa voz lírica (ou como tu falou: essa escrita poética que corrói, que inquieta)? tu tem algum procedimento, ou forma de provocar as invenções?


Quando eu comecei a participar das oficinas de escrita criativa, eu pude vivenciar exercícios divertidíssimos e muito potentes que me forçaram (no bom sentido) a criar narrativas. Por exemplo: na oficina com o Marcelino Freire, cada aluno pegou uma situação inusitada para desenvolver uma história, tipo “o que há no guarda-roupa de um anão”, “como é a varanda de um paraquedista?” , e por aí vai. No encontro com a Aline Bei, ela nos apresentou uma caixinha com pequenos objetos e cada aluno escolheria um para criar a sua história.

Depois dessas experiências entendi que é possível escrever um texto começando de um jeito despretensioso, sem cobranças, é possível deixar o texto ganhar seu próprio corpo, sua própria voz.


Acho que a gente muitas vezes teme a folha em branco. Mas o texto só aparece se a gente tentar. Muitos dos meus textos nasceram por tentativa. Ver uma frase na tv, uma foto antiga, uma palavra no dicionário, um diálogo com algum amigo, e é isso, tentar. Escrever, simplesmente escrever, começar. Isso vale para os dois gêneros.

Vou te propor um exercício, espero que goste (risos):

Essa aquarela autoral se chama “As gêmeas”.


Como seria discorrer sobre elas? Quem são as gêmeas? Porque estão caminhando? Que lugar é esse? Fique à vontade para escrever do modo que quiser, poesia ou prosa (se quiser, claro!).



Amei o desafio e certamente eu topo sim! te agradeço também pela delicadeza em compartilhar um trabalho teu aqui nesse espaço, e ainda pelo convite de escrever sobre ela. fiz alguns rascunhos. te mando um deles, em poesia e texto quebrado.

nessas horas não se

cruzam as atmosferas

(teu rosto, não vejo)

ainda que seja azul

a hora

em que nascem os olhos


pela palavra

uma hora alaranjada

antes do dia nascer

antes que sejam tuas

as horas douradas

essa dupla, breve

nada é igual

no começo

achei lindo quando tu me respondeu ali dizendo que muitos dos teus textos nasceram por tentativa. acredito também em coisa parecida. gostei demais de escrever um pouquinho sobre uma imagem (tão bonita) de tua autoria. te contar que durante a pandemia eu sentia a necessidade de escrever e fotografar como se fossem uma só coisa. tu também já escreveu sobre ela, ou tem algum texto sobre alguma obra tua que queira compartilhar?


Amei tua poética e fico feliz por ter aceito o desafio. Os versos são lindos! Gratidão. Não tenho um texto sobre “as gêmeas” mas, tenho uma fotogravura que fiz e um texto derivado dela. Deixo aqui:

Alvo


como um alvo

nosso tempo se contenta

em correr contra si mesmo


como um alvo

nos tornamos rachadura

sombras de solo árido


sopro acelerado

sobre o que padece

e finda.


Fiquei muito curiosa e animada por conhecer um pouco mais dos teus escritos, dos teus trabalhos. quando vi teu nome marcado em nossa publicação e entrei em contato com teu trabalho pela primeira vez, fiquei encantada em como tu transita por diferentes artes e diferentes linguagens, pela poesia, pela fotografia, pela música, pela pintura, pelas artes visuais. me identifico um tanto com uma quase-necessidade de andar em trânsito, de experimentar. queria muito ouvir mais um pouco de como é pra tu essa experiência e tua relação com a arte!


A fotografia chegou primeiro. Eu fazia parte de um coletivo aqui em Maceió, o Perambular Fotográfico, e foram os primeiros passos desse “buscar” criativo. Sempre me encantei com o poder que a fotografia tem de captar um momento e ainda assim dizer tanta coisa. A fotografia tem uma voz muito própria.

Com o tempo e com o uso das redes sociais, às vezes, eu compartilhava a foto e tentava contextualizá-la, para que as pessoas pudessem me fazer companhia contemplando algum detalhe daquela imagem exposta. Migrar para a literatura foi o curso natural dessa fusão.

Parece que quanto mais a gente explora as linguagens e os recursos criativos, mais a gente percebe o quanto elas conversam entre si. Fotografia, literatura, música, pintura, cinema, dança, todas as formas artísticas que ampliam e ressignificam o nosso olhar para o mundo e para a nossa própria existência. Penso que a arte salva. Àquele que se dispuser a acolhê-la.


Incrível demais! a forma como a fotografia fala sem usar palavra, e a forma como a literatura cria imagens sem necessariamente o uso da visualidade é algo que me encanta e me intriga um bocado. comigo, acho que o caminho foi meio inverso ao teu: comecei com a escrita, fui pra fotografia. e curiosamente só tive coragem de começar a publicar quando de alguma forma as duas coisas se misturaram. acredito que quando essas várias linguagens se acumulam na gente, alguma coisa inesperada acontece. é sempre um susto, esse de se deparar com a necessidade de dizer e precisar tentar de várias formas. acho muito bonito quando tu fala que ao fazer as fotografia, escrevia para que as pessoas pudessem te fazer companhia aos detalhes. te faço, agora, a pergunta inversa também: quais as imagens que mais aparecem nos teus textos?


Pergunta difícil (risos). Acredito que o mar é um elemento muito presente na minha escrita, não sei se pelas minhas próprias referências literárias, pelas vivências pessoais, por ter crescido tão perto dele ou pelo fato dele conversar diretamente com o eu lírico, a solidão, a finitude, o desconhecido, o horizonte, a imensidão, a paz, e tantas outras sensações que ele nos proporciona.

*

“você existe em demasia

e balbucia à sombra

a avalanche de outro nome


enquanto eu

tenho em o mar

em meus escombros.”


Que bonito, Lisley! acho que a forma como as imagens aparecem no texto são outros jeitos de olhar pra mesma matéria, e isso é muito lindo na tua escrita. a forma como tu fala da sombra, do nome, da ruína, do escombro. me lembrei de duas coisas pra te perguntar: tu costuma dar nome aos teus textos?


Confesso que os títulos não são o meu forte (risos). Às vezes o texto, principalmente na prosa, envolve um protagonista específico, um cenário, acho que assim fica mais fácil nominar. Na poesia, acho mais difícil. De qualquer forma, é algo que vem espontaneamente, se o texto me trouxer um título, ótimo (risos)!


Gosto de acreditar que um texto já carrega em si um nome, ainda que a gente não saiba. e digo isso quase pra me convencer também, porque uma das coisas mais difíceis que eu acho é essa: de nomeação. enquanto te escrevia, me veio a sensação de que talvez quando a gente escreva esteja também fazendo um esforço em dar nome às coisas que a gente vê, ao que sente, ao que escuta. faço agora uma pergunta que eu não sei a resposta: escrever é tarefa de nomear?


Penso que não. Escrever pode ser uma tentativa de traduzir ideias, inquietações, de forma que elas dialoguem com as pessoas, mas nomear, na minha opinião, pode restringir ou deixar tendenciosa a interpretação do outro.

É possível dar nome, mas isso nem sempre significa tornar compreensível ou estabelecer uma conexão com o texto. Acho importante o lance de se conectar ao poema ou ao conto ou a qualquer linguagem artística. Uma das propostas mais interessantes da escrita, para mim, é a habilidade de mostrar e não dizer, é não entregar o texto por completo, é dar margem também para a imaginação e a percepção de quem lê, é também criar a necessidade de desconstruir ou ressignificar. Criar, enfim, espelhamento, conexão. Então, o nome será sempre bem vindo, mas não sei até que ponto o que vemos pede um nome.

Escrever, para mim, é tarefa de transbordar.


Existe alguma fotografia tua que tu não consiga descrever a sensação ou o contexto que a envolve? daquelas que a imagem fala, ou que a palavra não alcança? (me conta um pouquinho dela, se quiser. e sinta-se à vontade se quiser trazer também)


Há uma foto (que surgiu por acaso) que eu já compartilhei, divulguei, já usei como inspiração para poemas, prosas poéticas, porém, sempre fico curiosa pelo olhar das pessoas sobre ela. Gosto muito de lançar essas provocações. Às vezes, envio alguma delas para outros amigos escritores, instigando-os a criação de algum texto, poema, propondo esse exercício de co-criação e troca.


Me traz uma sensação estranha, essa fotografia. parece uma lua deitada. tem uma sombra, um certo enigma que não é muito óbvio. fiquei curiosa também em saber do que tu tem escrito, entre poemas e prosas poéticas, sobre esta imagem. o exercício de escrever a partir de uma imagem é algo que sempre me provoca muito. é como se fosse um jeito de tentar trazer pra palavra as coisas que a gente tá vendo, e eu fico encantada em como nem sempre é algo simples. acho que a possibilidade de que, a partir dessa imagem, se tenham várias interpretações é a que a torna assim, com esse ar de mistério, de que ainda não a olhou por tempo suficiente. daqui por esses dias, se eu escrever sobre ela te trago também. me traz algo teu que tu fez com essa foto?


Amei conhecer tuas impressões sobre essa foto! Ela é antiga, um experimento sobre a noite, não lembro se cheguei a criar algum texto sobre ela, mas se ela fosse uma música, na minha opinião, poderia ser “clear water”, de René Aubry.

Mas penso que o bom mesmo é interpretar, depois de um tempo revisitar a mesma obra, reinterpretar, ressignificar, deixar fluir as impressões enquanto o tempo passa. Provocar o olhar, buscando sempre o novo, sobre as nossas próprias impressões. Não precisa ser algo finito.

Quanto à escrita, estou tentando formatar um novo projeto, e de fato, apenas amadurecendo a ideia. A última publicação foi o ebook gratuito "Nem todo atraso pede pressa”, lançado em outubro/21.

Atualmente tenho me dedicado mais à pintura, com a produção das telas em aquarela, pelo ateliê. A pintura também pode surgir pela palavra. É a palavra que faz a imagem ganhar visibilidade.


Coloquei até pra tocar a música que tu comentou (clear water, de René Aubry) enquanto lia e é realmente impressionante a forma como provocar essa mistura de sentidos tem sim um efeito na forma como se cria. Me conta também um pouco de como tem sido tuas criações na pintura, seja contanto como foi teu início e tuas primeiras experimentações, seja contanto como tá sendo agora ou ainda como é teu processo de criação de uma obra de pintura.


Pintar é minha terapia, é meu momento de silêncio e quando eu mais me conecto comigo mesma. Mais uma vez, uma linguagem artística derivada da outra. Depois do Orelha, eu fico brincando com as várias possibilidades de mexer com os sentidos em relação à palavra e à imagem. Comecei a pintar ainda pequena, mas retomei há muito pouco tempo, quando decidi me dedicar à técnica de aquarela. Gosto do abstrato, dos pequenos detalhes, e tive vontade de pintar inspirada também por algumas leituras. Daí surgiu a mostra virtual “IMAGINE O LIVRO”. A mostra tem telas inspiradas em livros clássicos e contemporâneos. E podem ser vistas no site atelielisleynogueira.com . Os trabalhos mais recentes são também aquarelas em duas séries: Vento e Travessia. Quando eu quero começar uma tela, é mais ou menos como começar um texto. Uma ideia, uma música, algo que me inquieta, uma frase, uma imagem, uma cor, aquilo que me convidar ao desenho. No mais, eu simplesmente deixo fluir. Sem limites, sem pensar demais.


Aproveitando também o ritmo da pintura e da aquarela: tu me contou que a palavra faz a imagem ganhar visibilidade. Tu também se aventura na poesia visual? Também fiquei muito curiosa pelo teu ebook “nem todo atraso pede pressa”, se for possível e ainda estiver disponível o compartilhamento do link, eu gostaria demais de ler!


Ai, infelizmente não. Gostaria muito, acho muito bonito, tenho amigos inspiradores com quem aprendo muito sobre poesia visual, como o poeta Henrique Pitt, e seu projeto LOGOS, por exemplo. Mas eu prefiro, nesse caso, continuar como fã e apreciadora desse segmento..

Sobre o link, aaahh é um grande prazer compartilhar aqui. Ficarei muito grata pela tua leitura! E convido a todos a essa leitura também! Foi um projeto muito especial para mim.


https://issuu.com/lisleyfranco8/docs/nem_todo_atraso_pede_pressa.docx


Aqui, também uso desse espaço como quem conta um segredo: temos essa paixão comum que passa pela literatura e pela fotografia. e te digo que, comigo, desde que se iniciaram as várias experimentações entre essas duas linguagens, nem uma nem a outra nunca mais foi a mesma. vivo de tentar criar imagem pra escrever, e criar alguma coisa escrita pra fazer de fotografia. lembro da sensação de quando, pela primeira vez, enquanto editava uma fotografia me veio uma frase na cabeça e precisei escrevê-la ali, na hora, em cima, sem pensar demais. desde então, nunca mais parei de desgrudar uma coisa da outra. hoje em dia tento fazer alguns bordados de frases em fotos impressas, tentando e furando os dedos. como é pra tu dar algum contorno às várias possibilidades que aparecem diante das tuas criações, e como tem sido tuas experimentações?


Adorei conhecer teu processo criativo e posso te dizer que é um caminho sem volta (risos). Essa curiosidade quase sinestésica em atribuir um sentido a um texto, a uma figura, foi o que me levou a criar o ORELHA DO LIVRO @orelhadolivro_ . Durante o período da pandemia, senti uma necessidade extrema de criar um novo projeto, até para me trazer um pouco mais de leveza, já que sou profissional de saúde e trabalhei na linha de frente do COVID, durante quase todo o pedido. Durante o isolamento, ocorreu-me a ideia de “ora, se um texto pode ter uma imagem, porque ele não pode ter uma música”? Assim, o projeto foi idealizado no sentido de atribuir playlists exclusivas, a partir da minha interpretação à leitura selecionada. Eu buscava na curadoria, aproximar o máximo possível as músicas a determinados elementos que eu pinçava do livro: personagens marcantes, cenários marcantes, alguma passagem relevante na minha opinião e ao final, quem acompanhava o Orelha podia ouvir a playlist pelo Spotify gratuitamente. Foi e continua sendo uma experimentação muito especial. Tenho um carinho muito grande por esse projeto.


Essa sensação de provocar os sentidos quando se experimenta na arte também é algo que me toca demais. realmente, é caminho sem volta! acho que essa possibilidade de estar entre diversas linguagens me deixa mais atenta ao mundo e às palavras. é muito forte e interessante teu projeto da orelha, Lisley. me encanta muito até o próprio título, porque é como se tu fizesse uma orelha de livro ser exatamente o que é, sem uma catacrese: é como se tu escutasse a história pra transformar em ritmo, em uma outra coisa. nessa tua caminhada com o Orelha do Livro, tu consegue dizer alguma playlist de livro que mais te impactou, ou que mais te surpreendeu?


Cada playlist é um desafio, acaba ocupando uma posição única, de maior ou menor dificuldade, mas é uma busca viciante fazer curadoria musical. Quando eu termino a leitura, já tenho na cabeça quais os elementos narrativos que mais me chamaram a atenção. A partir disso, é pesquisa.


Até então há 33 playlist no Orelha, mas cada uma nasceu de um jeito próprio. Confesso que há algumas que me marcaram pela pesquisa, como a que foi inspirada pela leitura de Pedro Páramo, de Juan Rulfo; A caixa-preta, de Amós Oz.


Músicas relacionadas à cultura mexicana e israelita, respectivamente. Então, imagina o tanto que é possível aprender, e que delícia aprender através da música!

Falando em playlists que me impactaram, acho que as playlists colaborativas são o máximo. Certa vez abri uma enquete para músicas de uma sexta-feira 13. Os seguidores do Orelha puderam mandar sugestões e é uma das plays mais incríveis por lá. Só musicão, vale muito a pena conferir.


Engraçado que temos mais uma coisa em comum, Lisley. durante o início da pandemia, eu estava finalizando a graduação, que também é na área da saúde, mas eu nunca consegui me distanciar da literatura, da arte, da fotografia. na verdade, acho até que em certa medida não se distancia nem se separa da minha formação, que é em psicologia. fico pensando que quando algo da gente gruda em formas de fazer arte, é dessas coisas que não se consegue fugir: a gente sempre volta. como é pra tu essa experiência, enquanto profissional de saúde, e como te acontece o processo de reconhecer-se artista? (te digo que pra mim até hoje é uma luta)


Somos tão complexos e tão cheios de camadas, não é? Não vejo como compartimentar a nossa essência nem os interesses que surgem a partir dela. Gosto de poder transitar entre essas linguagens, e concordo contigo que elas não se distanciam. Ser da área de saúde também me exige um olhar atento, o exercício da empatia, ocupar esse lugar de agente observador, e estar nessa posição pode ser um privilégio. Tantas histórias ao alcance da arte.

Acho que me reconheço mais como esse agente observador que te falei. Alguém que insiste em alimentar esse chão criativo, sempre que possível.


Tem vezes que gosto de brincar com fotografias e escrita, no meio disso, pego me perguntando sobre como às vezes a palavra pode quase confundir os olhos e se parecer com arte visual, especialmente quando faz fugir o sentido, faz desdobrar em outras camadas de significado e só resta, pra quem lê, observar isso que acontece diante do texto. como se a palavra tivesse ali não pra ser explicada nem entendida, sabe? não sei se faz muito sentido, me conta se algo te ocorre pensando nessas viagens?


Acredito que a força da arte está justamente em dialogar com o que carregamos na nossa essência. Há livros que nos arrebatam e nos deixam sem palavras. Outros reverberam e nos fazem pensar até quando a leitura acaba, algumas leituras são incômodas, outras são ininterruptas, mas nada disso existiria se esse estranhamento não estivesse dentro de nós. A palavra pode não ser de imediato explicada ou compreendida, mas certamente há de ser sentida. Sentir é a nossa resposta às provocações da arte.


Te ler me fez lembrar de quando encontrei com um poema da alejandra pizarnik. me senti provocada, arrebatada, sem palavras. uma escrita quase pouca e com tanta coisa escrita. eu gosto da ideia da densidade que cabe em pouco e atinge a gente. qual foi a última (ou a primeira) vez que tu sentiu algo perto desse estranhamento, desse arrebatamento diante da arte?


Há alguns autores que me tiram a fala e o eixo, a maioria deles na poesia. Gosto muito da Alejandra Pizarnik, bem como Wisława Szymborska, Sophia de Mello Breyner Andresen. É um estranhamento maravilhoso poder ressignificar pensamentos a partir dos nossos autores favoritos. Todos temos nossas referências, afinal.


Tenho uma grande admiração também por autores nacionais: Cecília Meireles, Orides Fontela, Hilda Hilst, Henrique Pitt, Isaac Bugarim, Milton Rosendo, Sara Albuquerque, cada um com sua assinatura própria, e ainda assim arrebatadora.


Na prosa tive uma experiência peculiar com Lygia Fagundes Telles. A primeira vez que ouvi o conto “Venha Ver o Pôr do Sol”, narrado pelo escritor, professor, cineasta, Nilton Resende, eu fiquei sem chão. Costumo dizer que fui “alfabetizada” pela Lygia, pois foi a partir dos seus contos que eu me apaixonei definitivamente pela escrita e nunca mais parei.


sempre gosto de ouvir esses momentos em que alguma coisa estala na gente e uma paixão aparece, é percebida, nasce. é preciso de certa coragem pra capturar esses momentos em que alguma coisa apaixona a gente, e fico muito feliz de tu dividir esse teu encontro com o conto de Lygia. fui ler, pois ainda não o conhecia. a forma como a narrativa vai acontecendo, os elementos, o susto. se teve uma coisa que me encantou mais ainda foi a linguagem dela, simples e ao mesmo tempo tão densa. com tantas imagens. ver o pôr do sol por uma fresta não era o que eu esperava. parece que novo a gente conversa sobre provocar sensações sinestésicas e memórias pela escrita, mas agora de outra forma: pela palavra. quais são teus jeitos de criar múltiplas sensações quando escreve, seja em prosa ou em poesia?


Na minha opinião, quanto maior o repertório, mais a gente vai conseguindo inserir elementos e sensações nos nossos processos criativos. É sempre muito rico conhecer novos autores, pintores, músicos, ver e ouvir coisas diferentes do que de costume, etc. Quando a gente se depara com uma escrita como a da Lygia, parece que algo na gente ganha luz e norte. Para mim, foi um divisor de águas. O bacana é dedicar horas à observar, a sempre buscar essas referências e elementos literários para enriquecer as composições.


Queria dizer, antes de ir, como me emocionou o teu conto de vagalumes. já que falávamos de conto, de narrar histórias, de escrever com os pedaços da gente e das nossas histórias no mundo. é muito bonita a forma como tu escreve e como tu cria cenários, pessoas. jeitos de narrar que falam um pouquinho da gente que lê e com a (luminosa) e necessária vontade de acender os fósforos e que sejamos um tanto vagalumes, também. penso que deixar essas faíscas de vontade de brincar, de falar de vida e, sobretudo, de continuar criando e colocando pela arte nossos jeitos de estar no mundo é muito lindo. nem todo atraso pede pressa, como tu bem diz já no título.

te agradeço um tanto pela tua disponibilidade em passar a semana conversando comigo, pelas tantas trocas e por tu se dispor a mostrar, compartilhar e dividir esse teu trabalho que passa por tantas linguagens. um abraço bem forte Lisley!


Eu que agradeço a tua generosidade por criar esse espaço e a tua sensibilidade em elencar as perguntas sempre tão inteligentes e atentas.

Muito obrigada também por me permitir revisitar essa minha pequena trajetória criativa. Às vezes nos pegamos em alguns altos e baixos artísticos em termos de produção e mesmo que a gente se sinta desestimulada por um momento, rever com tanto carinho o que o nosso caminho nos trouxe é também uma maneira de acordar e seguir. Continuemos! Obrigada pela chama.

Sucesso para o teu trabalho, para a Revista e que seja sempre de grande inspiração. Gratidão imensa!


Deixa aqui onde podemos encontrar mais do teu trabalho?

O trabalho em aquarela pode ser acompanhado pelo instagram @nogueiralisley e as telas estão disponíveis para aquisição no site atelielisleynogueira.com


Para conhecer as playlists inspiradas em grandes leituras é só acessar o @orelhadolivro_ ;


Um pouco mais sobre mim pode ser visto no @lisley_nogueira


E conheçam também o @casapoesia_ projeto autoral criado para divulgar e promover autorxs contemporânexs.





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