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  • Revista Alagoana

Mestra Irinéia: a resistência da vida




Texto de Lícia Souto



A dona de um dos nomes mais potentes no estado de Alagoas não teve a oportunidade de aprender a ler e escrever, mas descobriu através do barro uma maneira de esculpir sua própria história. Patrimônio Vivo do Estado de Alagoas, a artesã de 74 anos aprendeu a se reconstruir a cada vez que a vida levou algo dela.


Hoje, no Dia da Cultura Popular, a capa da Revista Alagoana é Irinéia Rosa Nunes da Silva.


“Vem daqui, mas eu não sei para onde vai, sei que até para fora do Brasil as minhas peças já foram.”, comenta Irinéia Rosa Nunes, sentada em uma cadeira de plástico simples, no meio do ateliê, rodeada por paredes pintadas de um azul forte, que contrastam com as peças de barro espalhadas por todo o espaço. Cabeças, bonecas, jaqueiras, mãos de promessas e diversas réplicas da famosa escultura ‘O beijo’ preenchem o espaço. Mas, no coração do ateliê, o que captura o olhar de quem entra naquele pequeno universo particular é um grande quadro com uma foto de Antônio e Irinéia sentados lado a lado, com seus nomes cravados em barro no profundo azul da parede.


De toda a casa, a Mestra admite que o ateliê é o lugar preferido dela, seu canto. A morada é situada aos pés da Serra da Barriga, na única comunidade remanescente do Quilombo dos Palmares, o povoado Muquém.


Fora das paredes azuis, criadora e criatura – Irinéia e o barro – demoraram a achar um caminho em comum. Aos três anos de idade ela perdeu o pai, daí por diante, as coisas ficaram mais difíceis e o trabalho veio antes da escola, ambiente que a Mestra acabou nunca frequentando. Por volta dos 19 anos, começou um relacionamento e saiu de casa, veio o casamento e vieram os filhos.


Hoje, aos 74 anos, enquanto fala sobre o primeiro casamento, dona Irinéia balança ligeiramente os dedos no ar como quem busca agarrar uma lembrança, nesse caso, não das melhores. O ex-marido era alcoólatra e dentre tantos dias incertos, acabaram perdendo a casa e ficaram sem lugar para morar, vagando pelas cidades. “Eu pensei assim: quando me casei, ele tinha saúde, e para eu abandonar ele agora acho que a ruindade é minha. Foi engano, minha filha, eu fiquei, mas foi muito sofrimento.”, relembra. O relacionamento foi se tornando cada vez mais pesado e impossível, até que chegou ao ponto em que ele a agrediu.


Em pensamento, Irinéia rogava: “Hoje Deus vai me dar coragem, que essa vida não vai dar para mim não”. Longe da família, passou ainda três meses em Juazeiro do Norte (CE) até conseguir juntar dinheiro suficiente para voltar para casa apenas com uma malinha e os filhos.


Somente por volta dos 30 anos de idade ela começou a de fato manusear o barro e produzir as primeiras obras: encomendas de promessas aos santos. Trata-se de peças de barro que representam alguma parte do corpo associada a superação de uma doença, quando essas graças são alcançadas leva-se a peça como agradecimento para o santo. Assim, Irinéia começou a ganhar um nome na comunidade pelas peças atribuídas às promessas e curas.

Tempos depois, o Sebrae de Alagoas notou o trabalho da artesã e começou a divulgar e incentivá-la a aprimorar as técnicas ainda muito prematuras.



Hoje, Irinéia representa uma geração - cada vez mais reduzida - de artesãs que são responsáveis por levar Muquém para o mundo e atrair os turistas que chegam de várias partes do Brasil para a região. No barro a artesã escreve e perpetua a própria história, como é o caso de uma de suas peças mais famosas, a jaqueira, que retrata o momento em que as águas do rio Mundaú transbordaram e arrastaram tudo que havia pelo caminho, onze anos atrás. A Mestra que teve seu ateliê e sua casa destruídos pela força da água que levou as peças embora, lembra que as pessoas – inclusive ela e a família – sobreviveram porque subiram em jaqueiras e no telhado de uma casa, onde permaneceram até a água passar.



E mais uma vez Irinéia teria que se reconstruir. Nessa época já estava casada com Antônio Nunes, seu companheiro de vida e de arte, ela que ensinara ao marido como manusear o barro e dar acabamento as peças, recorda que ele queria desistir e ela precisou apoiar e encorajá-lo para que eles recomeçassem. “Eu, uma mulher que não sabia ler e nem escrever, a forma que Deus fez eu me expressar foi através do barro”, declara a artesã.


Ao contrário do primeiro casamento, a vida ao lado de Antônio era mais sossegada, em toda menção que faz ao marido durante o relato, Irinéia carinhosamente chama “meu velho”. Partilharam tudo na vida, até a doença. Em outubro de 2020 o casal foi diagnósticado com coronavírus e foram encaminhados para o hospital. Ela passou 13 dias internada, conseguiu se recuperar e teve alta, mas Antônio foi entubado e alguns dias depois faleceu por complicações da doença.



foto 1: Agência Alagoas


Dona Irinéia conta que só agradecia por ter saído do hospital, mas que saiu sem o seu velho. A artesã lamenta e sente a falta do companheiro, mas diz que se Deus escolheu assim, ela tem que ter forças para continuar e levar o trabalho deles adiante. A respiração ofegante e cansada evidencia as sequelas que a Covid deixou. Ao nos receber pela manhã ela se queixava da pressão arterial que aumenta com frequência, dos problemas de saúde que se agravaram e tornaram ainda mais difícil o trabalho manual que já depende de outros fatores, como um clima favorável para poder queimar as peças que passam, em média, 8 horas no fogo.


A construção de um grande forno a lenha na casa de uma das filhas da Mestra era um sonho que se tornou realidade e facilitou o processo de confecção das peças. Ainda assim, em alguns períodos do ano como agosto, a produção caminha lentamente porque sem ter uma coberta, o forno não consegue funcionar bem, mesmo uma chuvinha rala porém contínua, atrapalha a finalização das obras. Ao explicar isso, Irinéia comenta que estava se programando para ir a uma cidade vizinha e queimar as peças em um forno mais moderno, que estava muito curiosa para ver e, quem sabe, um dia ter um ainda melhor que o atual.



Na ausência de Antônio, os filhos ajudam Irinéia com o trabalho que sozinha seria praticamente impossível de executar. Quando revisita em memória tudo que passou, a Mestra admite que ainda gostaria de conhecer muitos lugares no Brasil, que tem vontade e curiosidade de sair, mas que ao mesmo tempo tem muito orgulho do trabalho que desenvolveu, a dimensão que tomou e a história que deixará para a família, no barro, nos jornais, nas casas, na memória das pessoas.


Ela desliga as luzes do ateliê e o profundo azul das paredes junta-se ao escuro e engole os nomes do casal artesão, as tantas peças e histórias naquele ambiente. Cada obra irá para um lugar diferente, levando consigo um pouco dessa mulher memorável, forte e resistente. Um tanto como barro.


Vamos subindo as escadas e deixando o espaço para trás. No caminho até a casa de Mônica, a filha da artesã, o pequeno companheiro de Irinéia, o neto de 5 anos, que tem o nome do avô, vai pulando ao redor da avó. Estamos indo conhecer o forno em que as peças são queimadas. Sob um céu nublado na resiliente comunidade do Muquém, dona Irinéia vai caminhando lentamente e nos contando alguns detalhes do seu dia a dia.






*fotos Anna Sales e Lícia Souto

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