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  • Revista Alagoana

‘Navi’ aterrissa em Belém das Alagoas com foco em audiovisual coletivo


Texto por Bertrand Morais


Desço da van na rodovia a qual a poucos quilômetros de onde estou chegaria a cidade de Palmeira dos Índios. Vejo que estou cercado por sítios e fazendas com vegetações bem verdes por todo lado, sinal que a chuva tem estado presente, apesar do sol e calor que fazia no momento. Silas Pita, o anfitrião da cidade, já me esperava com um carisma natural e posteriormente pegamos uma estrada de acesso em uma caminhada de vinte minutos até a casa dele. Aos poucos, os campos davam lugar às casas, que por sua vez formavam uma rua.

Entrada da cidade com fortes características rurais. Foto: Bertrand Morais

O município em que eu estava chama-se Belém, não a do Pará no norte do Brasil, mas a das Alagoas no interior nordestino. E é pequena em tamanho e população, mas gigante como qualquer outra em histórias de sua gente.


Aproxima-se a manhã do dia 23 de outubro. Um sábado de mais sol e altas temperaturas. Com ele, também chegam em torno de mais dez pessoas num ônibus vindo de Arapiraca com um propósito em comum: reunir-se para tornar a pacata cidade em set de filmagem por todo um final de semana.


Alunos reunidos para gravação sob orientação do Navi. Foto: Bertrand Morais

A iniciativa é uma das várias do Núcleo do Audiovisual de Arapiraca (NAVI) que recebe apoio da prefeitura arapiraquense, da Universidade de Alagoas (UNEAL), ANCINE, entre outras entidades para fomentar e capacitar pessoas especializadas na produção de audiovisual no agreste alagoano. Nesta oficina, o jornalista que vos escreve esteve presente como estudante durante três meses de aulas teóricas e remotas, tão como nas presenciais ao lado de muitos outros e outras de diversas localidades do estado.


Fazia muito calor nos dois dias de gravações devido à radiação solar que era forte na cidade, mas o calor humano superou este último numa parceria fraterna e engajada entre os presentes. O primeiro desafio foi gravar em meio a dia de feira, tipicamente aos sábados. Precisávamos capturar um pouco da rotina da cidade e estarmos em meio as seis barracas que formavam aquela feira era imprescindível. Olhares atentos e curiosos nos acompanharam quebrados pela tamanha curiosidade de alguns em saber do que se tratavam nossas filmagens.


O segundo e maior desafio foi pela tarde do mesmo dia. Sob o sol com temperaturas em torno do 33° e 34° estivemos num pátio de colégio municipal para gravar um ensaio de banda fanfarra da cidade. O local carecia de arborização e, por consequência, sombras. Desconfortável para quem se apresentava e para quem os filmavam. O jeito era dançar para espantar o sol forte com muita água, chapéu de palha e protetor solar.



Já era sabido que na noite daquele mesmo sábado, o artista local, Daniel Bolinha, se apresentaria na quase única praça da cidade aguçando minha curiosidade. E foi lindo de vê-lo locar tendo a rua como palco ao som do violão, movimentando o povo da cidade que se juntavam em turmas ora para beber, ora para jogar conversa fora, ora para paquerar e, claro, dançar. Tudo isso, ao som das músicas do momento em estilos como o sertanejo, brega, “sofrência” e forró universitário. Foi o único momento que pude ver grande movimentação aos parâmetros de cidade abaixo dos cinco mil habitantes.



Chega o domingo. Dia de terceiro e último desafio da produção de audiovisual numa cidade pequena e quente. Após um dia anterior de gravações externas, desta vez, passamos para as filmagens internas em dois ambientes – casa atual e de infância na cidade do nosso protagonista Markus – e nem por isso, sofremos menos com o calor (risos). Porém, foi um dia mais suave com decupagens de espaços de memórias e de uma longa conversa com captura de imagem e áudio do nosso entrevistado.


“Sempre fui movida pela necessidade de ouvir e contar histórias e o audiovisual foi a melhor forma e mais completa forma que encontrei para isso. Percebi que “Balizando os Sentidos” era uma narrativa potente, capaz de mover estruturas” comenta a produtora e orientadora Wellima Kelly e fecha sua percepção “mesmo sem recursos financeiros mínimos para essa produção, me sinto feliz pelo poder que todos exerceram de sair da caixinha do mais fácil e criar vínculos afetivos. Agora seguimos para a etapa de edição, montagem e finalização”.


Equipe completa pousando para foto em uma das locaçãos do set de filmagens na cidade. Foto: Jhadielson Santos

No fim de set o sentimento era realmente de pertença e dever cumprido, além de cansaço físico, porque o muito do suor gerado por tod@s ali presentes faz-no sentir como o cinema alagoano é: na marra, garra e paixão. Mesmo que este cumpra papéis sociais importantíssimos à identidade de uma todo um povo, cujo qual está inserido numa só nação.


Vejam alguns depoimentos de participantes do curso:


Matheus Araújo, 21, graduando em História pela UNEAL de Palmeira dos Índios.


O tempo é para o cineasta como a pedra é para o escultor – diretor, câmera, continuísta, som, roteirista, toda a equipe, todos esses ocupam funções que se complementam no “esculpir do tempo” como diz Tarkovski. Fazer cinema é compreender a importância de um roteiro, mas também ter a sensibilidade para perceber que o tempo a ser esculpido pode te mostrar coisas que você não viu antes.

Na produção do Balizando os Sentidos, buscamos um olhar mais humano, distanciando do modo tradicional de fazer documentários. O nosso projeto entende que a pessoa documentada é fruto das relações sociais da comunidade em que vive. E o por do sol é especialmente lindo nessa cidade rodeada por morros verde; quero voltar a Belém o quanto antes.


Jaiane Beatriz, 24, graduanda em Letras pela UFAL Arapiraca e professora de Artes


Foi uma experiência incrível para mim, porque cada pessoa ali ia se ajudando numa cumplicidade em equipe, ao mesmo tempo em que, se identificavam com uma função específica. Foi tanto acolhimento, energia boa e luz no mesmo espaço que eu nem imaginava que seria do jeito que foi.


Silas Pita, 24, professor da rede pública de Belém/AL.


Foi um prazer receber os amigos do curso na minha cidade e em especial na minha casa. Markus Lima, o personagem central desse trabalho, esquiva-se dos sentidos de masculinidade e feminilidade, projetando por onde passa a sua fechação enquanto balista.

Que a equipe Navi possa estar presente em mais cidades que estão distantes dos grandes centros urbanos. Agradeço aos meus pais que com esforços têm sempre contribuído para minha formação profissional e o afeto do grupo para/com eles. E que o acesso à educação volte a ser um sonho possível para todos. Os tempos estão difíceis, mas; “Ela virá, a revolução, e trará ao povo, não só o direito ao pão, mas também à poesia”. (Leon Trósky)

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