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  • Revista Alagoana

Nosso nome nas esquinas de fevereiro, com Natália Lopes



Texto de Nathália Bezerra



Nathália - Oi Nat! vai ser uma maravilha esses próximos dias contigo e te escrevendo com nossos nomes quase iguais, exceto por uma letra no meio do meu. aqui faz bastante calor depois de vários dias de chuva e me dá um fôlego diferente. esse mês quase não escrevi no meu caderno e me peguei pensando sobre as pausas na escrita, que são tantas. já trocamos algumas palavras sobre isso, e agora particularmente vivo no impasse entre: não sei mais dizer as mesmas coisas de modos diferentes. como tem sido pra tu nesses últimos tempos?


Natália - Oi, minha xará! Que honra e alegria, poder participar desse momento contigo e, pelo que já percebi em nossas tantas trocas nos últimos tempos, o nosso nome igual, exceto por uma letra no meio do teu, é a menor das coisas que nós temos em comum. E que maravilhoso é poder constatar isso. Nath, eu venho passando por um longo inverno com a minha escrita e até já desabafei algumas vezes sobre isso contigo. O sol me guia tanto, que quando ele está ausente, eu me sinto completamente perdida e desintegrada, sabe? E, inevitavelmente, todo o meu fluxo criativo seca. E eu sofro, sinto, perco o sono e desaprendo até a usar o lápis. Tudo isso é porque eu não apenas escrevo; eu sou a escrita em essência, então, quando me distancio disso, me perco de mim. Eu sei exatamente como é esse sentimento de achar que tudo aquilo que nos define, se transformou em um deserto de ideias. Dá medo, eu sei bem. Mas o que a gente pode fazer? Beber água, tomar um café e ler um bom livro. Se agarrar numas poesias que mexam com todas as células do nosso corpo e esperar os sentimentos se reestruturarem. O inverno pode até demorar, minha amiga, mas quando o verão vem, ele limpa todo o ar acinzentado que tinha ficado no nosso caminho.


Falando nisso, em desaprender a usar o lápis: quais são teus jeitos de escrever? tem coisas que me acontecem de forma brusca e digitar às vezes parece mais próximo, a depender de onde/como eu esteja. mas eu acredito que tenha uma particularidade da escrita, quando no papel, que não se repete na digitação. me conta como é um pouquinho pra tu?


Eu tô sempre com um lápis perto de mim. Cadernos, bloquinhos, os livros que estou lendo, tudo serve de ponto de anotação de qualquer coisa. Antigamente eu não gostava de rabiscar meus livros, mas acho que amadureci bem nesse ponto. O livro é nossa conexão com o mundo, então, por que não colocar nele as nossas impressões sobre esse mesmo mundo ou outros mundos possíveis da nossa imaginação? Mas, claro, nem sempre é possível escrever manualmente e aí entra o bloquinho de notas do celular, que aliás, é uma conversa comigo mesma no meu whatsapp e tem uma função muito interessante de me auxiliar nos pensamentos aleatórios que vêm e vão no decorrer do dia. O papel, pra mim, será sempre um lugar de conforto e afeto para a escrita. Meu diário tá sempre ali, à espreita, mesmo quando eu esqueço dele por uns dias. Sou apegada a caderninhos artesanais de todo tipo e guardo um tanto deles. Minha mão esquerda dança muito melhor no papel. Digitar mesmo é só para as conveniências modernas, porque é inevitável, mas é muito comum que eu escreva algum rascunho no papel e depois transfiro para o documento e finalizo por lá.


Sobre isso, de rabiscar os livros, também desaprendi. gosto da sensação de ler algo e rabiscar nos cantinhos de lápis qualquer coisa que me capture. depois quando releio é como se sempre fosse uma lembrança perdida, um vestígio do que se passou durante a leitura. tu me parece tão apaixonada não só pela escrita, mas pela leitura também. e acredito que muito do que a gente devora como inspiração talvez vá deixando marcas, vá fazendo atrito com as nossas palavras. tem algum trechinho em cantinho de livro que tu queira compartilhar? pode ser uma anotação, um pensamento, um rabisco, um tesouro perdido, um começo de texto que tu nunca começou.


Ai, sim! Eu sinto uma necessidade quase física de ler um livro. Às vezes eu fico uns dias sem me largar numa história e é como se meu corpo expressasse fisicamente que aquilo já está me faltando. Dia desses, eu vinha de uma sequência de leituras não tão arrebatadoras e comentei com meu marido: “poxa, eu tô afim de pegar uma leitura que me sugue tanto, mas tanto, que eu perca o sono. Quero ler tanto, que ficarei vesga”.



Esses rabiscos eu fiz recentemente. O primeiro, é de um livro de Marguerite Duras: Escrever e o outro é o de Wislawa Szymborska: [um amor feliz]. Me arrependo de não ter riscado os meus livros antes, acho que já teria tanto pensamento solto pela minha estante…


Particularmente, eu gosto bastante dessa escrita do não-escrito, sem gramática, breve, repentina. talvez seja exatamente isso que acontece nas bordinhas dos livros, nos rabiscos apressados de quando uma ideia vem antes de fugir. quase como se fosse isso que tu anotou ali no cantinho: uma escrita com vida própria. como tu percebe a vida própria da tua?


Ah… principalmente quando eu escrevo uma frase de uma vez só, sem pensar direito, que parece não fazer sentido nenhum na hora que sai, mas quando vou reler o texto, aquela frase é praticamente a alma de tudo. Não sei explicar muito bem, parece que é algo etéreo, orgânico, que sai de mim sem que eu perceba muito bem o que estou fazendo/escrevendo.


Houve um tempo e de vez em quando volto nessa mania de costurar alguns caderninhos pequenos pra mim, porque desde muitos anos que prefiro escrever em cadernos sem linhas. com o tempo fui gostando da sensação de inacabamento e de ter, ali, algo costurado. porque acho que a escrita costura quem escreve também. fiquei curiosa com uma coisa: conta mais um pouquinho dos caderninhos artesanais que tu falou que tanto gosta e tem um monte deles. quais são as histórias deles e como chegaram até você?


Eu nunca fiz um caderninho, apesar de gostar de fazer trabalhos manuais. Talvez tente produzir um, qualquer dia desses. Geralmente eu ganho; por exemplo: uma amiga viajou para Buenos Aires uns meses atrás e achou por lá um bloquinho de anotações lindo lindo da Mafalda. Ela me disse por mensagem: “amiga, comprei um presentinho pra tu que é a tua cara”. Outro caderninho que me acompanhou por uns dois anos, foi presente de uma outra amiga. Ela me disse que uma conhecida produzia cadernos artesanais e ela adorava presentear as amigas do mundo das letras com esses caderninhos. Esse daí eu ganhei há uns cinco anos. Na Bienal de Alagoas, em 2019, eu parei em um stand que vendia umas frescurinhas com ilustrações de cantores, escritores, toda uma galera do mundo das artes e me apaixonei por dois caderninhos que vinham uma ilustração linda de Janis Joplin (que eu amooo) e outro com um trecho de uma música de Chico Buarque, meu outro amor. O caderninho artesanal azul que eu mencionei em outra resposta já tá comigo há uns dois anos. Ele foi um presente que eu dei a mim mesma rsrs. O meu diário é um caderno lindo com capa de couro que uma amiga, quando foi me presentear com ele, me disse: “toda escritora precisa ter um caderno de couro. Agora você já tem”. Achei tão lindo isso. Ele é o meu preferido. Eu tenho outros velhinhos que estão guardados. Mas no fim das contas, tudo pra mim vira papel de palavra, até papel de pão.


É tão bonito o jeito como a gente carrega esses pedaços e lembranças das pessoas, especialmente nesses teus cadernos que já chegam com tanta história pra contar. quando tu diz de tudo virar papel de palavra, me vem algo que muito me interessa que é quando a escrita acontece despreparada, feito um espanto. quando a escrita acontece nas horas do dia em que não se tá nem pensando em escrever. perdi as contas de quantas vezes quase fui dormir e precisei levantar pra escrever antes do esquecimento. já te aconteceu de algum texto se começar (ou terminar) assim, de forma repentina?


Muito! Eu já levantei de madrugada, porque acordei com algum pensamento latente e não conseguia mais dormir. Já passei dias e dias com algumas palavras me rondando que só pararam de me perturbar quando eu rabisquei as bichinhas em algum lugar. Com o ENSAIANDO PALAVRAS aconteceu mais ou menos assim também. Eu deitava e acordava com isso na cabeça (isso foi em 2018 e eu não tinha o meu instagram ainda). Eu não sabia o que queria dizer isso de “ensaiando palavras” mas pensava nele o tempo inteiro e foi quando eu pensei em fazer um instagram só para publicar meus textos e aí rolou uma tal de iluminação e tudo pareceu fazer muito sentido. Eu passei alguns dias pensando nisso, é como se minha mente já tivesse planejado tudo e estava me enviando pequenos sinais de sentimentos até que eu pudesse entender o recado.


Nossa Nat, e que interessante que o ensaiando palavras começou com esse estalo. como se precisasse acontecer. esse ímpeto é bem o que tu falou sobre quando algo sai de forma orgânica e acaba sendo a parte que mais te toca. como tem sido teus processos com o ensaiando palavras?


O ensaiando palavras é como se fosse o meu pseudônimo rsrs. Ele começou como um espaço virtual pra que eu pudesse espalhar no mundo as coisas que eu escrevia nos meus cadernos. Hoje ele é minha marca, um projeto onde busco adentrar diferentes espaços em plataformas diversas, propagando minha voz por aí. Ainda é um projeto baby, mas eu quero muito que ele vá se moldando ao meu crescimento profissional. Somos uma coisa só, na verdade. Estamos crescendo juntos.


Gosto de acreditar que sair um texto é também sair junto um pouco da gente, que escreve: e vem a coragem, o frio na barriga. espero nunca me acostumar com a sensação de como se fosse a primeira vez, talvez pra que não vire algo automático, sabe? como foi pra tu a experiência de começar a publicar teus textos?


Cada texto publicado me traz realmente um sentimento de estreia. Meu coração sempre fica acelerado, sinto medo de como esse texto será recebido, de como vai entrar nos poros de cada pessoa. É assim, sempre como se fosse a primeira vez. e eu concordo contigo, acho também que quando a gente perde o medo e a emoção, toda a nossa criação tá deixando de fazer sentido.


Tu falou em poesias que mexam com as células do corpo. quais são as que te espantam, te agarram, te carregam pra outros cantos?


Eu tenho sérios problemas em escolher as minhas coisas preferidas rsrs. Meu livro preferido sempre muda de tempos em tempos, algumas músicas mexem com a minha alma, mas não sei escolher somente uma e com a poesia acontece o mesmo fenômeno. Meus amores e encantamentos vão fluindo à medida que escolho algo aleatório na estante, ou vejo um post na internet e passo tempos e tempos obcecada por aquilo. Recentemente eu estava querendo ler tudo de Manoel de Barros, depois que assisti ao documentário “Só dez por cento é mentira”, na Globoplay. Peguei o trailer aqui, pra tu dar uma sacada: https://www.youtube.com/watch?v=9_qm9AqLxcs


Outro dia eu comecei a ler algo de Hilda Hilst e passei dias e dias pesquisando tudo o que podia sobre ela. Assisti a entrevistas no youtube, encontrei um documentário também por lá, comprei livro e alimentei aquela nova paixão. Foi assim com Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Wally Salomão… e por aí vai. Nas últimas semanas eu ando namorando a poesia de Wislawa Szymborska e Matilde Campilho, principalmente depois que comprei os livros delas. Tem um poema de Matilde que eu estou especialmente encantada e já assisti a esse vídeo algumas vezes só pra sentir de novo cada arrepio na pele. Ele se chama Fevereiro e é tão potente que eu sinto fraqueza no corpo, cada vez que o vídeo acaba: https://www.youtube.com/watch?v=a2u1D4i-C48

É este poema que, atualmente, está me levando a vários lugares confortáveis e agradáveis.


Partilho da mesma sensação de não conseguir eleger minhas coisas preferidas, de absolutamente nada. acabo quase sempre dizendo a última coisa que fiz/li/escutei/ouvi/assisti, ou a primeira que lembrar. acho tão difícil escolher uma só coisa. mas dentre eles, certamente te conto de segredo que fevereiro é um poema e um vídeo que há muito me visita e eu quase poderia te dizer que sei algumas partes decoradas, de tanto que se repete. uma das minhas partes preferidas é quando ela diz do mercúrio se multiplicando por todas as festas, por todas as frestas (e que talvez seja isso, algo parecido com o amor). tenho muito carinho por imagens que grudam na cabeça desse jeito e analogias que se criam junto de memórias que poderiam ser só nossas, mas não são. aproveitando do mercúrio e que falei sobre imagens: como é pra tu a criação de analogias e de imagens, seja a criação de uma narrativa ou de um texto poético?


Eu tô absolutamente tragada por Fevereiro. Quero ler/ouvir todo dia, como se fosse uma oração mesmo. Hoje eu posso dizer que poesia é minha religião e me benzo com isso. Eu acho que utilizar analogia é uma das formas mais bonitas e subjetivas de escrever, porque a gente transforma o que vê e o que sente e bota no papel e aquilo se move para outros lugares dentro da gente e vira algo totalmente diferente do que seria no início. Achei confuso quando escrevi, mas fazia tanto sentido essa resposta na minha cabeça. Acho que vou deixar assim e ver no que ela se transforma aí dentro de ti e de quem estiver lendo.


Assisti o trailer do documentário que tu mandou, e fiquei há alguns dias martelando uma das frases que dizia: “tudo o que não invento, é falso”. vou assistir inteiro! acredito que inventar essas ficções quando se escreve talvez seja, pra mim, uma forma de viver mesmo. acho que ainda que se tente recontar uma história, ainda fica alguma coisinha latejando. o que tu diria nessa trama da falsidade, tão verdadeira, das palavras?


Esse documentário é fantástico, simplesmente inesquecível. Eu te digo que qualquer coisa só é verdadeira enquanto está dentro da gente. Depois que sai e invade a atmosfera, não posso mais me responsabilizar por isso. Falo no sentido interpretativo da coisa, já que cada um, em seu próprio universo, terá o seu momento a sós com texto e aí é ele quem decidirá quais serão as camadas da verdade e as da mentira.


Fico encantada com essa possibilidade de que cada texto invente sua verdade, invente sua ficção. acho que é das coisas mais bonitas que a literatura possibilita: estar entre as duas coisas. te escrevendo por esses dias me lembrei da ana cristina césar. em “correspondência completa”, há uma carta. e somente uma, de poucas páginas. gosto de acreditar que as cartas são sempre incompletas também. sempre fica alguma coisa a dizer. havia um tempo em que eu costumava escrever longas cartas ou bilhetes para as pessoas em aniversários. tu tem alguma lembrança assim, de quando escrevia/escreve para alguém?


Tenho sim!

Quando eu era criança, amava escrever cartas para a minha avó, que morava em outra cidade. Todas as minhas férias eu passava na casa dela e aí levava as cartas que eu tinha escrito ao longo dos meses; e um detalhe importante aqui: eu não lembrava muito disso até começar a pensar na tua pergunta. Que lindo isso, esse desbloqueio da memória de tempos tão importantes pra mim. Meu marido é outro destinatário das minhas cartas. Quando a gente namorava, ainda na adolescência, eu escrevia muita coisa, e tinha tanto drama naqueles textos hahaha. Sou um pouco assim até hoje, mas já não escrevo mais tantas cartas, quase nunca, aliás, e sinto falta disso com tudo se tornando tão digital atualmente. Um detalhe: aqui em casa, nós temos uma caixinha com todas as cartinhas e bilhetes daqueles tempos, acho que merecem uma publicação. Pensarei a respeito.


Do lado de cá: penso que essa pergunta que te fiz sobre a criação de imagens em um texto talvez seja das coisas mais difíceis e ao mesmo tempo que instigam a um certo olhar atento no cotidiano, como se as imagens estivessem no mundo e fosse preciso tentar pegá-las emprestadas. como tu percebe imagens cotidianas em teus textos?


Eu tenho muito mais facilidade de criar a partir de coisas que eu vejo por aí. Quando eu estou com a minha inspiração comprometida, recorro às fotos de coisas e lugares que eu vou deixando na minha galeria do celular. As pastas que crio no Pinterest também são minhas grandes fontes de inspiração.


Tu costuma ler ou escrever ouvindo algo? se sim, me manda pra ir embalando o ritmo da nossa conversa! vou amar ir ouvindo tuas referências e compartilhando do ritmo da tua escrita, que é tão leve e tão solta, com um ritmo tão próprio e teu.


Eu faço quase tudo ouvindo música. Para ler e escrever, não poderia ser diferente. Quando eu preciso de muita concentração, é a música instrumental clássica que me ajuda a focar e criar. Ultimamente também eu tô numa vibe muito gostosa de jazz instrumental. Quando as ideias já estão formadas e eu tô só editando, revisando ou fazendo alguma pesquisa, minha playlist “Cotidianos” tem uma diversidade gostosa pra suscitar todo tipo de sentimento. São essas aqui:

https://open.spotify.com/playlist/52maQNQ6EgN5PM5mWXBaCc?si=072382b4431e4f6f

https://open.spotify.com/playlist/5YuRL2Ut7qaCndnO6T2E8P?si=107386c27aa34434

https://open.spotify.com/playlist/4mZ7g80yVKx1LZESjJvW6g?si=e16afa52844f4af7


Fui te ler e escrever ouvindo as playlists que tu mandou. comecei pela última e a primeira música que começou foi the blower’s daughter, que é o tema do filme Closer. é um filme lindo que fala sobre relações, encontros, desencontros. eu gosto demais desse filme, tu o conhece? tá se passando todinho na minha cabeça enquanto te escrevo, já assisti um bocado de vezes. é muito particular a forma como a música é carregada de memória. e interessante como a escrita também parece carregar uma coisa que envolve os nossos sentidos, que não se faz sem alguma coisa do corpo. como se tivesse uma melodia e um ritmo, o próprio ato de escrever. a gente também acaba carregando as marcas das coisas que a gente vê, escuta, faz, sente. como se fosse um jeito de carregar um pouco do (nosso) mundo pra outro lugar, o da palavra. quais são as coisas que mais te marcam na tua escrita?


Eu simplesmente amo Closer e também já assisti algumas várias vezes rsrs. O que me chama atenção nesse filme, é que ele aborda com muito respeito formas diversas de amar não convencionalmente. Personagens que amam e que se perdem na mesma medida, que erram muito mais do que gostariam e estão sempre tentando fazer as coisas darem certo apesar dos desencontros que a vida proporciona. Desencontros muitas vezes mais sentimentais do que físicos, e voltando à música, eu a inclui na playlist justamente em uma das vezes em que assisti ao filme. Eu me vejo como uma pessoa muito visual e perceptiva. Falo isso no sentido de me sentir um pouco mais à vontade para escrever a partir de imagens e coisas que observo ao meu redor. É muito comum nos meus processos eu buscar referências e ideias a partir da minha própria galeria de fotos do celular ou nas dezenas de pastas que tenho salvas no Pinterest. Imagens. Eu me formo sempre a partir delas e em geral acho que é isso que molda a maior parte da minha escrita: as coisas que estão presentes no meu cotidiano.


(Nat, te escrevi as perguntas de cima antes de ver essa resposta aqui acima e eu estou absolutamente encantada em como falamos de cotidianos e imagens em tempos diferentes. achei isso muito lindo. tu acabou me adiantando a resposta um pouquinho sem saber)


Hahahaha eu respondi meio parecido lá em cima =) e, sim, uma linda sintonia.


Lembrei que tem um vídeo que gosto muito da Matilde Campilho que ela diz que a função da arte é fraquejar os joelhos um pouquinho. acho que com a escrita acontece coisa parecida: nem sempre a tarefa de quem escreve é só de criar. acho que tem suas doses de se deixar enfraquecer também. como é pra tu essa tarefa, a de escrever?


(link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=zWYJ-drGO5Q&t=3s)

Eu acho esse vídeo tão maravilhoso, porque ele diz tudo, enquanto ela fala tão pouco. Engraçado e enigmático você trazer essa referência de Matilde Campilho, porque hoje mesmo eu acordei bem cedo, aproveitei o silêncio do domingo, Vitor e Cauê ainda dormiam e eu fui pegar um solzinho na minha varanda lendo Jóquei, de Matilde. A sensação que eu tive foi de que abriu um portal no meu peito e alguma coisa começou a se mover muito dentro de mim. A poesia sempre me sacode de alguma forma. É sempre um gatilho para que eu comece a escrever algo que eu nem sabia que queria botar no mundo. E aí, sai. Voa! Explode um tanto. Escrever tem disso mesmo, tantas vezes enfraquece quem escreve que é possível transmitir a mesma sensação para quem lê. Eu tenho uma confissão: quando estou me sentindo muito fraca, as palavras desaparecem. Quando acho que vou cair, preciso parar para recuperar o meu fluxo sanguíneo e aí, nada sai. Mesmo. E eu sigo guardando, compartimentando sentimentos, amalgamando qualquer coisa que queira se formar dentro de mim. É só depois que o período de inverno começa a passar, aquele que te falei lá no comecinho da nossa conversa, que eu volto com a capacidade de escrever algo, começando por pequenas frases, poemas não-poemas, respostas de mensagens mais elaboradas que se tornam parte de textos posteriores. É sempre depois, nunca durante, que eu sinto minhas mãos se movimentarem no sentido do texto. Acho que às vezes eu sinto tanto que não sobra lugar para mais nada. É assim que eu sinto meu corpo, quando estou ausente de tudo. É quando eu só quero buscar o ar para respirar e mais nada.


Aproveitando o tópico Matilde Campilho, deixo um link de outro vídeo dela:

https://www.youtube.com/watch?v=b3Nq6Unp67E



Voltando ao início: a ausência do sol e a ausência do texto que tu tava me contando. penso que esses períodos de pausa podem ir do inverno ao inferno muito rápido, entre a cadência do gelo, a agonia do que queima quando não se escreve. por vezes, quando me sinto um tanto esvaziada gosto de anotar pequenas partes de coisas do dia, sem compromisso que se faça um texto. acho que talvez o exercício de escrita (e de não-escrita) também tenha a ver com essa observação que se faz de longe, antes das palavras chegarem. me interessei particularmente pelas pequenas frases e pelos teus poemas não-poemas que tu contou que surgem nessas épocas, como se fosse o anúncio de um retorno. conta mais um pouquinho sobre eles, se puder? e se quiser compartilhar também, fica à vontade!


Esses ensaios de retorno surgem sempre de um jeito inesperado, no meio de uma conversa, uma leitura ou de algo que eu estou assistindo. São frases curtinhas e costumo digitar no celular uma quantidade suficiente para que depois eu possa passar alguns bons minutos transcrevendo para meu caderno que guarda as ideias, trechos e pensamentos, e que, atualmente, é um caderninho artesanal revestido por um tecido azul, estampado com florzinhas brancas e delicadas em formato de mandalas. Suas folhas são de papel amarelado e eu tenho tanto pensamento, frase, palavras aleatórias e seus significados e poemas em construção, que eu não gosto nem de sair de casa com ele para não correr o risco de perder. Quando eu falo de poemas não-poemas, é porque eu tenho sempre muita dúvida se o que eu escrevo pode ser considerado poesia. Mesmo entendendo que o fazer poético seja algo subjetivo e não somente um jogo de métricas em que a gente deve seguir as liturgias impostas por algum cânone (todo respeito a todos os poetas e estudiosos que nos trouxeram até aqui), então eu tento sempre me mover delicadamente neste terreno afetivo que é a poesia. Além disso, meus poemas não-poemas talvez sejam pedaços de algo que em alguma medida achei bonito a ponto de se transformar em algo maior depois, em outro momento, quando eu puder costurá-lo com outros trechos e que eles possam habitar juntos no mesmo espaço de linhas.


Algumas frases soltas que digitei no meu bloco de notas do celular ultimamente:

- morreu soterrada nos muros que ela mesma construiu;

- que todos possam ter direito a pequenas pausas;

- falhar por opção não deixa de ser um privilégio;

- a minha zona de conforto é uma mãe para a minha ansiedade.

Coisas desse tipo, sabe? Um dia qualquer essas frases se transformarão em texto. Por enquanto, apenas descansam.


Deixar descansar a palavra talvez seja das coisas que eu tenho aprendido nos últimos tempos. acho que por ser coisa muito frágil e ao mesmo tempo muito bruta, esse material (da palavra) talvez precise também de um respiro, de um sustento antes do retorno. me fez lembrar que até um certo tempo eu não costumava reescrever os textos, eu achava que precisava sempre manter algo do primeiro rascunho original, da forma como tinha vindo. com o tempo, fui me dando conta de que às vezes deixar o texto descansar, retornar e reescrever era também um jeito de deixar que outro corpo pra aquele texto se criasse ali. pra tu, como tu vê o processo de reescrita, de mudança de frases, de escolha das palavras?

Tem algo que preciso corrigir no meu processo de escrita que ainda me atrapalha muito, que é escrever já corrigindo, revisando, cortando, procurando sinônimos, por exemplo. Poxa! Por que começar do final, se todo começo é sempre tão mais poético? Não tem como uma ideia fluir, dançar, se assentar se eu escrevo já pensando em alterar as coisas ali de imediato. Por me perceber neste erro, eu já sento para escrever em um certo estado de alerta, tentando equilibrar com o estado de poesia, tão necessário para quem está criando qualquer coisa. Sobre descansar a palavra, em geral, eu faço isso já tem um tempo. A cada leitura/revisão, deixo o texto em suspenso por uns bons minutos, ou horas, ou até dias, se tiver tempo, pra essa coisa toda se acostumar com a nova realidade. É nesse tempo que eu passo um café, faço o jantar, resolvo qualquer coisa da vida real. E aí, retorno, releio, altero o que achar necessário. É nessa hora que eu mudo a playlist e vai tocar tanta música brasileira bonita, que tudo ao meu redor ficará silencioso. Só estaremos aqui eu, minhas mãos no teclado e a música. Nesse processo, eu sempre roubo uma palavra ou pedaço de frase de alguma música, procuro sinônimos, leio em voz alta e no fim de tudo, vai bater o medo de enviar o texto pra qualquer lugar que seja. Sinto ansiedade por imaginar que deixei passar algum erro, volto no texto e leio mais uma ou duas vezes. Sempre dói um pouco mais para finalizar. Dá agonia.


Essa dor antes de finalizar um texto e deixar que se vá ao mundo é bem particular, né? é como se fosse deixar que aquela verdade inventada deixasse de ser nossa pra ganhar outros olhos, outras bocas. no fundo, pra mim eu nunca sei se a agonia é em finalizar ou em enviar algum texto para que outra pessoa leia, talvez seja um pouco das duas coisas. como foi quando pra tu começar a ser lida por outras pessoas, a mostrar as coisas que tu escreve? ainda seguindo o ritmo da pergunta: quando tu sente que um texto tá pronto? é possível sentir que um texto finalizou?


Sobre a primeira parte da pergunta, eu nunca tive intenção de ser lida, pelo menos até 2018, quando inventei o Ensaiando Palavras. Mas desde lá, ainda que eu tenha ampliado esse canal de comunicação e visibilidade e, com isso, adquirido um pouco mais de experiência e couraça, eu quase nunca estou à vontade com meus escritos. No caso, após eles ganharem o mundo. E aí, continuando no fluxo da pergunta, eu sempre finalizo um texto inacabado. Explico: por mim, ele nunca fica pronto e é nesse momento que eu preciso me forçar a parar e dizer: “mulher, tu fala demais!!!” Aqui, nesta entrevista, Clarice fala que o papel do escritor brasileiro é o de falar o menos possível. Ainda estou aprendendo sobre isso. https://www.youtube.com/watch?v=ohHP1l2EVnU


Não lembro mais onde li ou ouvi isso, mas era algo que dizia assim: “pra escrever tão pouco assim precisei escrever muito antes”. às vezes quando (finalmente) consigo escrever textos ou poemas mais curtos, geralmente acontece de precisar escrever bastante antes, até cortar. parece contraditório, mas eu acredito que seja muito mais difícil dizer pouco do que dizer demais. como é pra tu a tarefa de cortar um texto?


Eu sou prolixa, então acabo sempre falando e escrevendo demais. No fim, acho que tudo o que eu estou dizendo/escrevendo é importante, então a parte de cortar qualquer coisa, acaba me sangrando um pouco. Isso também é algo que eu sei que preciso amadurecer nos meus processos. Acho que a coisa toda da escrita precisa dessa constante evolução e adaptação. Como tudo, né? A escrita é viva e inspira cuidado e atenção. A edição e os cortes são parte do processo.


Tenho a mesma sensação, Nat. é como se a escrita precisasse existir também pelo que dela se corta, pelo que se apaga. também me acho meio prolixa e exagerada às vezes. acho que um texto também é feito das coisas que a gente não diz e acho que talvez a gente que escreve só continua porque vive tentando conviver com essa impossibilidade. tu escreve de um jeito narrativo muito bonito. tuas respostas e teus textos são bem como um passeio: me dá a sensação de que cria uma história e que inventa mundos cotidianos. nas tuas aventuras entre a escrita de prosa e poesia, encontra se há alguma particularidade no teu processo de criação entre as duas, ou ambas fluem por formas parecidas?


Fico feliz em saber disso. Desse passeio que os meus mundos cotidianos inventados fazem em quem me lê. No geral, eu acho que as duas formas de escrita se completam e guiam uma à outra, porém, na poesia eu me sinto mais orgânica, flui melhor na maioria das vezes. Acho que parte muito da simplicidade e da menor responsabilidade que sinto em explicar tudo e ser compreendida em cada frase. Já no caso da prosa,acho que preciso sempre de mais alguma coisa, às vezes escrevo demais e preciso ler o texto várias vezes para ajustar, reduzir e aparar os excessos.


Achei muito lindo isso, de que na poesia há uma certa simplicidade necessária em se permitir não explicar, ou não ser entendida. (vou fazer uma pergunta sobre isso, por enquanto tô pensativa sobre escrita narrativa e escrita poética, tão parecidas e tão diferentes)


Eu me sinto abraçada por Manoel de Barros, quando tudo na criação da palavra dele é simples. A composição das frases, o olhar para além da janela, o que pra ele fala a natureza. Poesia é ciência que não se explica. Ou você sente chacoalhar agora, ou vai sentir em algum outro momento. Se eu te explico algo da minha poesia, ela já deixou de ser, virou a esquina e se tornou qualquer outra coisa.


Não sei se pra tu a parte de dar títulos ou nome às coisas é a mais fácil ou a mais difícil, e se tu costuma como vamos fazer agora: no fim. isso, do fim, como a gente falou em algum momento, faz parte também da dor e do alívio que é terminar um texto. aqui, eu sei que vai ficar a boa memória de vir conversar contigo um pouquinho todo dia, quase como se a gente se escrevesse cartas. te agradeço pelo teu tempo e disponibilidade de vir aqui ao longo da semana. logo, espero que a gente consiga se encontrar e abraçar pra ter uma conversa longa feito essa também de perto!


Eu não poderia estar mais feliz e conectada com a minha escrita nesses últimos dias. Estar aqui por alguns dias, falando contigo e olhando para dentro de mim mesma, buscando minhas referências, redescobrindo conscientemente os meus processos e encontrando formas diferentes de escrever tantas vezes sobre as mesmas coisas. Porque a vida é baseada na repetição e o que a faz tão diversa são maneiras diferentes que a gente consegue falar sobre ela. Eu espero que nosso próximo poema seja feito pessoalmente, com nossos lápis e cadernos se encontrando e nossas palavras se entrelaçando. Te admiro!


A admiração e o carinho são muito recíprocos, Nat. logo a gente se abraça pra conversar (ainda) mais. antes da gente ir, deixa aqui onde encontrar um pouco mais do teu trabalho?


Bom, saio deixando rastros por esse mundo virtual rsrs

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Tenho uma coluna no Jornal Folha de Alagoas e vocês podem me encontrar também na versão online do jornal: https://folhadealagoas.com.br/blog/natalia/

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