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  • Revista Alagoana

O Azul da Memória de Jhonyson Nobre

Atualizado: 29 de out.

Por Anna Sales





O que é o azul para você? Para Jhonyson Nobre, azul é a cor das suas memórias. É como quando vemos um filme, e as lembranças de determinado personagem passam com um filtro diferente para mostrar que aquele evento já ocorreu. “Na minha cabeça, esse filtro é azul”, ele comenta.


Mas além da memória, há um sentimento a mais por essa cor. O azul foi, por séculos, considerado uma cor nobre, além de ser dificilmente encontrada na natureza. Na Antiguidade, o custo da lápis lazúli (pedra afegã de onde era extraído o pigmento azul), rivalizava, até mesmo, com o preço do ouro.


E é assim que Jhonyson quer retratar os assuntos de suas obras: com uma cor nobre.


“Percebi que algumas narrativas são simbolicamente ordinárias na vida de muitas pessoas. Histórias da minha vida, personagens, costumes, dentre outros aspectos, são semelhantes em outras realidades. Decidi assim pintar minhas próprias memórias recheadas de silenciamentos sociais. Silêncios esses que moram no inconsciente social e que precisam de pontes para a consciência coletiva. Então, tem muito sobre a valorização da ancestralidade, do se reconhecer enquanto pessoa negra, as denúncias ao racismo estrutural, que não aliviam nem mesmo na infância. Posso dizer que meu trabalho é uma denúncia através do reaver de memórias sistematicamente apagadas.”, conta.


O primeiro contato que Jhonyson teve na arte, na compreensão do que era um artista e seu trabalho, foi através do Van Gogh e uma releitura feita por ele, da obra do Millet, chamada de First Steps. Através do interesse por esse trabalho, ele começou a estudar sobre a história da arte. Mas foi percebendo o recorte eurocêntrico e branco nas narrativas traduzidas era algo longe da sua realidade enquanto pessoa negra que nasceu e cresceu numa cidade do interior. O cotidiano narrado por aqueles artistas, não lhe traziam pertencimento. Até que começou a ir além, descobrir artistas como Abdias do Nascimento, Carolina Maria de Jesus, Maria Auxiliadora, Yusuf Grillo, Dalton Paula, Frida Kahlo, etc.


E o interior é sua raiz. Jhonyson é natural da cidade de União dos Palmares, município que tem em sua história o Quilombo dos Palmares. Lá, Jhonyson teve uma infância recheada de história. “Fui livre para brincar e criar mundos dentro daquela cidade. Passei a maior parte da minha vida ali, estudei, fiz amigos, enraizei. União, com toda sua carga histórica, atravessou e formou muito do que sou hoje. É um lugar simbólico que está presente recorrentemente nas minhas criações.”, recorda.


Catarse


Jhonyson conta que o processo de produzir um quadro é uma catarse, no aspecto freudiano. “Para mim, tem um cerne terapêutico e faz parte da compreensão das minhas próprias feridas e o apego a certas memórias. O quadro “eu desejo, eu desejo, de todo coração, voar para longe, para terra dos dragões” definitivamente foi o mais difícil. Ele inaugura a série “Azul é a Memória” e traz simbolicamente questões e atravessamentos da infância, de um jeito sutil e melancólico. Têm muitas camadas neste trabalho, as raízes, o ritual de aniversário, o processo de soprar as velas e poder realizar um desejo. Desejo é o pulsar para o movimento e isso tem muito força.”, explica.


Pintar, para ele, é comunicar o que tem de mais íntimo. É dizer, sem literalmente dizer. É chegar mais perto do não-dito, dos afetos, do próprio inconsciente. A arte tem esse papel em sua vida, de conduzir tudo com mais calma e aproveitar a passagem do tempo que temos por aqui.


Um dos quadros mais conhecidos e que acaba gerando uma identificação com o público é o “Vermelho é apagamento, mas enraizar é resistência”. Esse trabalho surgiu quando Jhonyson estava revisitando algumas fotos da sua infância. No mesmo momento, lhe trouxe à memória o dia da fotografia.


“Chegando lá, precisei tirar essa foto e ficar sério. Tinha livros, uma bandeira do Brasil no fundo. Fui pesquisar mais sobre esse tipo de foto e descobri que ela estava atrelada ao período de ditadura no Brasil, que implementou uma matéria chamada “educação moral e cívica”, que tinha objetivo de orientar acerca da moralidade e civismo proposto nesse período sombrio da história nacional. Isso me remeteu também aos casos de assassinatos de crianças pela polícia militar nas periferias do Brasil, principalmente crianças negras que eram confundidas com “marginais”.


Decidi pintar sobre isso, sobre essa moral e civilidade que tenta velar o racismo estrutural e o genocídio negro, sob um governo que autoriza essas mortes, que incentiva o apagamento. Seja pelos cortes na educação, pela falta de investimento no combate à desigualdade, pela vontade de controlar o passado, apagar a história e controlar as narrativas do presente. Então, além de ser um quadro que remete a minha memória, é algo que pode ser identificado na memória de muita gente Brasil afora. Pode parecer uma narrativa antiga, mas grita uma realidade atual.


Ser uma pessoa negra no Brasil faz com que a resistência ande junto com a existência. É preciso resistir para existir, para ocupar espaços, fazer valer direitos e tentar construir um país cada vez mais longe da estrutura racista que ele foi erguido”.





Além do quadro


Quando começou a pintar de maneira mais assídua, o artista se interessou pela tinta à óleo e acrílica. Pintar à óleo requer um preparo prévio com aditivos tóxicos, junto da própria tinta que carrega uma alta taxa de toxicidade. A acrílica é menos nociva, mas ainda assim o afetara. Aliado ao fato de que não tinha um lugar arejado para pintar, tudo isso fez com que ele começasse se sentir mal e ficar intoxicado seriamente, com complicações na respiração, erupções cutâneas e outros sintomas que fizeram adaptar todo o processo e torná-lo menos tóxico.


Depois de ficar intoxicado, precisou descobrir um jeito de seguir produzindo arte. Foi aí que se interessou ainda mais pelo processo de escultura e a própria pintura digital. Foi testando, aliando programas e tentando ser o mais manual possível para construir uma técnica que lhe fizesse aliar a pintura digital à pintura acrílica, nascendo um trabalho híbrido que demanda de muita paciência na construção.


“Gosto muito da ideia do tridimensional, ir para além da imagem estática e poder subverter os significados de formas, objetos e inseri-los em outras narrativas. Tenho produzido bastante nesse sentido, pintar sobre outros formatos e suportes. É muito interessante e instiga muito a criatividade pensar nesse sentido.”, explica.






Novos ventos


Esse ano, três importantes marcos aconteceram na carreira do artista. Além da exposição no Instituto Igoarias, em União dos Palmares, Jhonyson foi à Paris expor no Carrousel Du Louvre, além de participar do Velas Telas e expor, até dezembro, a série “Azul é Memória”, na Boutique Bon Vin. Ele fala como tem sido essas experiências:


“Paris foi um marco importante na minha jovem carreira como artista. Como um aviso em capslock e em letras iluminadas na minha mente dizendo: você é capaz de ir além. A cidade é inspiradora e respira arte. Tem muita história ali, nas entrelinhas, no cotidiano. Tive a oportunidade de ver pessoalmente obras de artistas que me despertaram para a arte, como o Van Gogh e a Frida Kahlo. Uma experiência única, de expor perto de gente incrível, de tantos lugares diferentes. Vou levar essas memórias comigo para vida inteira.


O Velas Telas é um projeto incrível, idealizado por uma mente mais incrível ainda, que é a da Mirna Porto Maia. Recebi o convite dela e imaginei diversas coisas até o dia da exposição. Mas ver, o meu trabalho, que foi pensado para estar posto em um tipo de suporte, naquelas dimensões, projetados em telas de barco, na praia, em dia de lua cheia... é mágico! Me emocionei e digo sem sombra de dúvidas que se tornou um dos dias mais importantes da minha vida e da minha trajetória na arte.


A exposição “Azul é a Memória” que segue no Bon Vin até o dia 07/12/2022, é um projeto daqueles que são deliciosos de ver acontecendo. Tem essa característica mais intimista, em um lugar aconchegante e passível de reflexões sobre as obras com mais calma e cuidado. Estou muito feliz com o resultado da exposição e da movimentação que obras ocupando um espaço em movimento pode trazer.”


Se você pudesse mandar um recado para o Jhonyson do passado, qual seria?


Finalizo com texto que escrevi em forma de carta para uma obra, que me ajudou e pode ajudar quem for ler essa entrevista:


Querido passado,


Quando você estiver lendo essa carta, você será o presente. Eu escrevo do presente, só que para você eu sou o futuro. Então, preciso te contar umas coisas:


Pegue mais leve com você. Entenda que as coisas passam e a dor ela vai embora. Ela deixa marcas, mas essas marcas farão parte de você.


Você vai construir muita coisa, mas entenda a importância de desconstruir e de começar do zero. No futuro, que agora é o meu presente, esse “zero” se tornou muita coisa. Não desista, siga em frente.


Eu entendo que pensar em mim é algo que você faz muito. Mas aí onde você está, eu ainda não existo. O que existe é o agora, o seu agora, o seu presente. Abra o embrulho. Viva esse momento, ele passa e bem rápido.


Tem muito por vir. Muita gente vai deixar algumas coisas em você. Mas é sobre o que você faz com o que lhe é dado. Ressignifique, use como impulso. Você chegará no futuro e chegará mais forte.


Por fim, se olhe com mais carinho. Amar o outro como a si mesmo é um conselho valioso e para entender o amor é preciso se permitir amar. Ame-se do jeito que você está agora, pois é isso que você tem. Tenha orgulho de você!


com carinho,


Futuro.



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