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  • Revista Alagoana

O Manifesto Parte Alta: Pela Voz dos Esquecidos

Atualizado: 13 de dez. de 2020



Coluna de Madson Costa


O Manifesto Parte Alta é, sobretudo, uma crítica aguda às estruturas sociais do capitalismo contemporâneo e a exploração do homem sobre o homem. É uma crítica às crescentes taxas de pobreza e desigualdade, que se disseminam nos espaços geográficos em todo o mundo. É um manifesto suburbano em prol do proletariado mundial e contra as dores do povo. É a autoafirmação de uma intelectualidade poética e jovem dos subúrbios maceioenses. Os termos P. Alta e P. Baixa aqui tomam sentidos diferentes, onde o primeiro refere-se aos espaços marginalizados e ocultos, de modo geral e amplo dentro das estruturas plutocráticas brasileiras. Enquanto que o segundo designa os espaços privilegiados do mesmo sistema complexo, não se restringindo às limitações do imaginário geo-cartográfico.


A Parte Alta escorre pelos becos e vielas do globo, está nas favelas, é a representação da discrepância entre os espaços do capital, é um fenômeno cultural ainda a ser desbravado. A Parte Baixa desempenha seu papel de opressão na luta irreconciliável entre explorados e exploradores, dominados e dominadores, tomando para si todo destaque das rotas culturais da metrópole agitada e a atenção dessa cidade, ao passo que melindra a já marginalizada produção cultural das periferias. Ponta Verde, Jatiúca, Pajuçara exercem sua função antagônica dentro da realidade maceioense.


A Parte Baixa apresenta-se como a perpetuadora da miséria dos explorados, como aquela que se beneficia dos males de uma sociedade intrinsecamente ligada a uma lógica de exploração e alienação. A Parte Alta está na dicotomia entre subúrbio — casebre de pobres, que perdem a si mesmo em seu trabalho diário — e Ponta Verde — palácio feito de mortes e escravidão, onde ricos aristocratas descansam sem sua consciência de classe. A P. Alta toma para si o destaque cultural e o papel de resistência contra a posição de barganha do trabalhador moderno. Ela produz incessantemente novos talentos e artes, ela surge como o polo central de novos artistas e intelectuais renegados pela oligarquia monopolista do capital e tomados pela falta de condições materiais e existenciais. Ela engendra a maior parte da produção cultural maceioense.


A P. Baixa melindra a arte suburbana marginalizada, que floresce pelas ruas, becos e vielas dos bairros esquecidos de nossa Maceió. Renego a segregação poética do burguês-níquel, os gostos da aristocracia, os aspectos e formas que apetecem a já-firmada burguesia contemporânea. A literatura, política e arte devem assumir seu caráter natural de resistência e serem feitas para todos e por todos, em condições e moldes acessíveis tanto para o aglomerado subnormal quanto para o conjunto dourado do festim capitalista. Devem tomar seu lugar e papel na eterna luta de classes e pôr-se a lutar contra a alienação das massas, contra a dominação do lucro e a objetificação do corpo como mera força de trabalho.


Sobre minha poesia, afirmo que ela não está alheia aos acontecimentos sociais, ela firma-se como poesia engajada e social, como denúncia das desigualdades e dos males da selva de concreto e aço com seus céus soturnos e tristes, com suas nuvens cinzas e mortas.

Minha poesia percebe-se como fruto da realidade e do meio em que vive e reafirma sua essência de luta e sua importância ao ocupar os meios literários para disseminar sua linha de pensamento e seu caráter de resistência contra as opressões. O que eu proponho para arte é simples — que seja para todos e todas, em todos os lugares e âmbitos da sociedade —. As novas problemáticas pós-século vinte exigem um processo de renovação, progresso e diferenciação. Por isso, venho a propor um movimento que nos una enquanto nação, que colete os vários fragmentos de arte e junte-os para fazer revolução, para denunciar e expor as desigualdades do mundo.


Aqui proponho uma nova tendência, uma nova escola, que desmitifique que as artes são para os eruditos, para o burguês-nefasto, o homem da aristocracia nacional. As artes são para todos, para os subúrbios, as favelas e até para os apartamentos de Leblon e Copacabana. Quero uma arte que nos una enquanto pessoas e desconstrua todo processo de segregação alienante do capitalismo, que nos divide entre ricos e pobres, patrões e empregados, dominadores e dominados, exploradores e explorados. Devemos criar uma identidade nacional, promover o consumo das artes.


Devemos quebrar o monopólio artístico detido por aqueles que se chamam de elite, de homem-nádegas. O fato é que — a arte emana do povo e para ele deve ser feita —Em virtude disso, proponho uma arte suburnista, aquela do subúrbio, das favelas e dos morros contra o elitismo exacerbado. Portanto, para atingir nossa emancipação artística, devemos criar um movimento para difundirmos e fundirmos nossas ideias, de modo que tenhamos um espaço onde nossas vozes possam ser ouvidas. Devemos criar um movimento de junção, um coletivo de arte conjunta entre os espaços da cidade. Um espaço de debate sobre as artes, a politica e as ciências, onde possamos discutir ideias e propor reflexões.


Um espaço de efervescência intelectual e artística, um Cabaret Voltaire, onde se possa sair tanto os novos dadás, quanto o novo Die Brücke ou Der Blaue Reiter. Tudo está obvio e, por isso, eu rogo pela criação da criação de um grupo-movimento de artistas pensadores ou apenas pensadores maceioenses, que se unam para fazer arte e revolução. Maceió necessita de um Círculo Zútico. Uma nova arte que viaje entre os ônibus do Vergel ao Jaraguá, de Bangu até Leblon, de Detroit e Bronx a West Village, de Tanque D’arca a Porto Alegre, dos bairros às cidades, das cidades aos países, nesse fluxo incessante de intercâmbio e conexão de todos para com todos de todos os lugares, dos locais mais isolados da superfície desse amontoado de poeira estelar.


Devemos romper com a segregação espacial do capital através de lutas, temos que fazer com que ela se espalhe aos cidadãos de Yanaka, Kamakura, Shirokane-Takanawa, Makuhari, espaços da grande Tokyo, até os confins da Índia com suas Bombaim, Chennai, Bangalore. Quero que os povos dividam suas histórias e suas artes, com seu âmago, com sua essência poética de ser e viver, que pausem as guerras, os conflitos e a busca pelo lucro.


Quero o amor e a libertação, estes são os ideais que defendo com “O Manifesto Parte Alta”. Todavia, nossa emancipação se torna impossível de se obter sem luta, consciência e resistência contra aqueles que se fazem oposição. A arte livre viaja por todos os centros mundiais, regiões e localidades. Outrossim, deve-se agora romper com as barreiras limitantes e iniciar uma nova tendência, um manifesto-movimento: “a arte emana do povo e, portanto, deve ser para todos”. O que quero é destruir os preceitos aristocráticos de outrora, quero arte acessível para todos os cantos feita em todos os cantos.


“Assim como o proletariado, os artistas não têm nada a perder em uma revolução, a não ser suas amarras “.




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