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  • Revista Alagoana

"O medo de perder minha mãe foi o gatilho para Banzo nascer"

Atualizado: 7 de out. de 2020



Texto de Lícia Souto


Entrevistamos o fotografo Rogério Silva (Roger), que foi vencedor do primeiro lugar na microbolsa EL PAÍS e Artisan, concurso que premiou retratos que documentam o cotidiano de periferias na pandemia. Roger tem 40 anos, é morador da periferia de Maceió, em Alagoas, e é professor de história, adesivador e fotógrafo.



- Como você começou na fotografia?


Roger - Iniciei cedo, ainda no inicio da minha adolescência no interior de Pernambuco, ao vir de férias para casa dos meus pais em Maceió, pedi minha primeira câmera a meu falecido pai, que conseguiu juntar o dinheiro para comprar uma analógica da Kodak. Eu tinha uns doze anos. Numa dessas viagens de volta para o interior, comecei a fotografar amigos e familiares. Foi amor à primeira vista, adorava fotografar e ir revelar depois, achava aquilo incrível. Mas um tempo depois tive que me afastar, as coisas ficaram difíceis, passei mais de vinte anos sem pegar numa câmera fotográfica. Só quando comecei fazer História na UFAL é que reacendeu a paixão então comprei uma câmera usada em 12 vezes. RS. Daí não parei mais.


- Você já disse em outra oportunidade que o ensaio Banzo foi idealizado a partir da notícia da morte de uma empregada doméstica por covid-19, a primeira registrada no Rio de Janeiro, ainda no início da pandemia, que foi infectada pela patroa depois de uma viagem à Europa. O que esse ensaio representa para você? E o que você quer dizer a partir dele?


Roger - Ainda é muito difícil falar de Banzo, porque cada vez que penso nele me dá vontade de chorar. Esse ensaio representa muita coisa para mim, é um fragmento expressivo da minha vida enquanto negro periférico. As fotos foram feitas a partir dessa reflexão da primeira morte por COVID-19 no Rio, que não por acaso foi de uma empregada doméstica, função que minha mãe com quase sessenta anos ainda precisa desempenhar, não só ela como tantas outras mulheres brasileiras.

O medo de perder minha mãe foi o gatilho para Banzo nascer.

Contudo, esse ensaio fala não só sobre minhas dores, medos e angustias existênciais enquanto negro, Banzo é uma reflexão sobre as vidas negras que ao longo da história do Brasil tiveram que lutar para sobreviver e ter esperanças de melhorar de vida. Costumo dizer que Banzo é mais do que um ensaio de autorretratos, ele é um manifesto. As máscaras são alegorias desses medos e angustias. Às vezes não mostramos nossa verdadeira face, porque vivemos numa sociedade que a todo o momento nos condiciona para um corpo e rosto de felicidades, mas lá no fundo estamos destruídos por preconceitos, traumas e solidão, típicas de um sistema opressor.


A etimologia da palavra (Banzo) quer dizer saudades da terra natal, tristeza profunda, essa palavra era usada pelos escravizados no Brasil quando eles queriam expressar essas angustias, eles diziam estar banzos. Mas Banzo também era uma forma de resistir a escravidão... Sintetizando, com Banzo quis dizer que estamos aqui, mesmos machucados, feridos, frustrados e tristes nós continuamos a lutar, mesmo com tanta desigualdade e violência nós conseguimos chegar até aqui e não vamos desistir. Podemos ser Banzos, mas não somos covardes, vamos lutar, mesmo em meio a escuridão, mesmo com medo de não chegarmos em casa depois de um dia exaustivo de trabalho. Mesmo em meio as lágrimas, sem ter em quem acredite em nós, sem políticas publicas para reparar nossas perdas, mesmo sem chão, vamos seguir sendo quem somos. Não nos calaremos.


Banzo é sobre isso, sobre lutar e não desistir, se estamos aqui é por causa de muita luta dos nossos ancestrais. Banzo nasceu assim, sem fomento financeiro, um querido amigo e parceiro me ajudou a pagar as máscaras, minha mãe me deu a cortina que serviu de fundo, o cenário foi a sala da minha casa, minha companhia foi a câmera, as lágrimas e a dor, se com isso consegui desenvolver Banzo, isso significa que se nos derem mais oportunidade podemos fazer e ser quem quisermos, e talvez esse seja o medo deles.


- Seu trabalho está chegando cada vez mais longe. Com esse maior reconhecimento, quais são os próximos passos para a sua carreira?


Roger - Essa é uma questão delicada, tenho sonhos muitos altos, nesse momento enquanto escrevo eu choro pensando neles. Quero viajar os interiores de Alagoas, fazer um trabalho fotográfico com os quilombolas, mas a verba é inexistente. Depois, quero passar um tempo fora do país, conhecer outras culturas, fotografar outros mundos, levar meu trabalho para outras terras.


Mas enquanto não consigo realizar esses sonhos maiores, estou lançando no dia 12 o meu quarto ensaio autoral de autorretratos que se chamará DISTOPIA, serão nove postagens no meu Instagram e tenho material para outras investidas com ele. Paralelo a isso, comecei a comercializar algumas obras minhas em formato físico, algumas fotografias de Banzo já estão disponíveis para venda. Além disso, estou desenvolvendo um projeto fotográfico para retratar os Guerreiros e Guerreiras de Alagoas, ainda está em desenvolvimento, mas acredito que em dezembro estará pronto. No mais, vou continuar sonhando com vôos ainda mais altos.


- O que atrai o seu olhar, enquanto fotografo?


Roger - Tudo que possa me representar e que represente meu povo. Sou amante da fotografia em geral, mas as cenas que me chamam atenção têm a ver com as injustiças sociais, com o descaso dos poderes públicos. Gosto de registrar cenas que toquem as pessoas, às vezes não consigo é difícil controlar a câmera, ela foi criada para satisfazer o desejo de uma sociedade industrializada e capitalizada. Faz pouco tempo que pessoas como eu podem ter uma câmera na mão. Sabendo disso, de uns tempos pra cá, penso muito antes de fazer um click.

Não é só sobre apertar um botão, é sobre o que você quer que os outros vejam sobre você e sobre o que pensa. Superficialidade não dá mais. Se não for para produzir algo que agregue para mim e para quem acompanha meu trabalho, nem saio de casa.

- Por que a escolha do preto e branco (que predominam em suas fotografias)?


Roger - Isso é tão polêmico, já recebi cada indireta por isso. Rs. Quando voltei a fotografar em 2014, um dos primeiros fotógrafos que encontrei nas minhas pesquisas foi o Sebastião Salgado, eu fiquei louco com suas fotos, passava dias olhando o trabalho dele. No início, foi por influência dele, hoje fica difícil fazer fotos coloridas, faço alguns trabalhos encomendados, mas não fico muito feliz, mas para o mercado preto e branco não vende. Como preciso pagar as contas, eu faço. Gosto do preto e branco porque não tem distração, para mim ela se aproxima mais da “realidade”, traz uma dramaticidade e uma poesia na fotografia. Enquanto eu puder, continuarei no preto e branco.


- Quais são as principais dificuldades que você percebe hoje na fotografia?


Roger - Viver de fotografia é a principal, principalmente para fotógrafos periféricos como eu, acredito que muitos se identificam com essa questão: material caro, desvalorização do nosso trabalho e dificuldades em ser inserido nos lugares que podemos alcançar visibilidade. É complicada essa questão, envolve muita coisa, há um ego muito grande no mercado da imagem. Na maioria das vezes, ganha quem tem o melhor equipamento e as melhores relações no meio comercial.


- Embora existam diariamente casos de racismo repercutindo no Brasil, há pessoas que ocupam posições de grande visibilidade e/ou cargos públicos que já declararam acreditar que não existe mais racismo, e isso reflete também um pensamento coletivo da sociedade. Como um homem negro e professor de história, você acredita que, enquanto sociedade, estamos conseguindo destruir esse racismo estrutural ou está acontecendo uma regressão?


Roger - Esse discurso de que o racismo não existe é fruto da ideologia burguesa que persiste no imaginário de grande parte da população brasileira, o mito da democracia racial difundida por Gilberto Freyre autor de vários livros, dentre eles Casa Grande e Senzala, já foi derrubado por outros historiadores há bastante tempo. O que acontece é que infelizmente o ser negro foi tão marginalizado ao longo da História (e ainda é), que infelizmente temos inclusive, representantes negros em posição de poder que negam o racismo. Entretanto, essa aberração é fruto de uma sociedade permeada pelo racismo estrutural de que fala Silvio de Almeida.


Ainda carregamos no cerne da sociedade vários fatores que leva as pessoas acreditarem nessa não existência do racismo, uma delas é a colonização das nossas mentes, continuamos nesse processo de não reflexão sobre nossa História, os poderosos sabem disso, e trabalham para que essa reflexão não seja feita. Identificamos-nos com a cultura européia, nos ensinaram amar tudo que procede dela, inclusive seus ideais. Infelizmente existe um projeto em curso, que não é novo, de destruição da cultura negra, é só olharmos para o que está acontecendo na Fundação Palmares, por exemplo. Sou professor há seis anos e nunca vi ser aplicada a Lei 10.639, que versa sobre o ensino de história afro-brasileira, pelo contrário, o que vejo são inúmeros casos de racismo dentro das instituições, eu mesmo já sofri alguns e tive que intervir em outros tantos.


Ou seja, ainda temos muito que fazer. Avançamos? Sim. Mas temos um longo caminho pela frente. Ser antiracista continua sendo urgente! A maioria da população brasileira é negra, mas infelizmente ainda não se identificam com a cor da pele e foram privadas do conhecimento da sua verdadeira História.


- Do ponto de vista de fotografo, qual você acha que seria o papel da fotografia no combate ao racismo?


Roger - Denuncia e valorização da cultura negra. Espaços para os próprios negros e negras produzirem esse material.



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