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  • Revista Alagoana

Onde estão as mulheres na literatura?

Atualizado: 10 de out. de 2020


Texto de Gabriely Castelo


Quais os nomes vem a sua mente ao pensar em mulheres escritora? Clarice Lispector, Rachel de Queiroz e Cecília Meireles, essas são algumas das escritoras de mais prestígio no Brasil. No entanto, elas são exceções, a maioria das mulheres que almejam uma carreira literária não ganha visibilidade, ou ganha apenas após o falecimento, como Hilda Hilst, que enfrentou dificuldades e preconceitos durante toda a vida em seu processo de escrita, publicação e venda de livros.


De acordo com a quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2016, as mulheres são as que mais leem dentre a população: 59% são leitoras. Além disso, para as pessoas que tiveram uma influência no hábito de leitura (33% dos entrevistados), as representantes do sexo feminino foram as principais responsáveis (11%). Ao saírem do lugar de leitoras, no entanto, os trabalhos das mulheres são ofuscados, e os nomes que ganham destaque são os masculinos.


Onde estão as mulheres na literatura? Os números respondem: O prêmio Nobel de Literatura, por exemplo, existe desde 1901, mas foi destinado a 100 homens e somente 13 mulheres em sua história. E no Brasil, onde podemos encontrar nossas Clarices? A Academia Brasileira de Letras com seus 40 membros e desses apenas 5 são mulheres, e a Academia Alagoana de Letras recém completada o seu Centenário em novembro de 2019, é considerada a entidade literária máxima do nosso estado e é composta por 40 membros e dentre 8 são mulheres, que recém ingressaram. A também clássica Festa Literária de Paraty (Flip) em 2014 contou entre os 44 autores convidados, somente 7 mulheres. E entre seus homenageados apenas 3 mulheres: Clarice Lispector em 2005, Ana Cristina César em 2014 e Hilda Hilst em 2018.


A homenagem a Ana Cristina César é cheia de pontos confusos e que foram problematizados por fãs, que afirmam que a sensação que ficou, no fim, é que a poeta foi valorizada mais na sua aparência e na sua misteriosa biografia do que na sua obra em si. Esse desconforto foi provado nas mesas de debate, nos vídeos de abertura e entre os depoimentos, há imagens de uma atriz que representa a poeta, abatida sobre uma cadeira, vestindo apenas uma camisa, ou deitada em uma cama de calcinha transparente, ou nua sob o chuveiro. Enquanto isso, os comentários falam de uma aura intangível que circundava a escritora, de sua depressão e suicídio, sua vida sexual.


Um dos curtas incluiu um depoimento de Reinaldo Moraes, em que ele conta de uma noite em que esteve hospedado no mesmo apartamento em que a poeta estava e pôde ouvir, através de uma fina parede, a poeta urinar no banheiro. Apenas um dos vídeos relata o processo de auto publicação de Ana pelo uso de mimeógrafo, um instrumento de fazer cópias de papel escrito em grande escala, considerado de difícil manuseio.

Nas exposições dedicada a autora deram um foco grande para as fotos da artista, com inclusão de várias imagens da poeta na praia de biquíni. E, em reportagens do G1, a escolha por Ana C. como homenageada foi apontada como um dos fatores do enfraquecimento de movimento do festival, por ser “desconhecida do público médio”.


Ou seja, a vulnerabilidade de uma mulher homenageada é tamanha que ela pode ser apontada, inclusive, como causadora de um insucesso do evento, mesmo que o país estivesse vivendo uma crise e não estivesse investindo em viagem e cultura.

Já no âmbito internacional J.K. Rowling, famosa pela série de livros Harry Potter. Seu nome verdadeiro é Joanne Rowling, o K na abreviação é uma homenagem a sua avó, Kathleen, mas seu agente literário e a editora acharam que seria melhor adotar a abreviação por acreditarem que o público não leria o livro se soubesse que havia sido escrito por uma mulher.


Então por que as mulheres que são maioria entre os leitores, consomem mais livros, revistas e e-books do que os homens e são as principais incentivadoras do hábito de leitura de seus filhos são as menos reconhecidas? Elas publicam livros na mesma medida que eles, mas seguem recebendo menos destaque na imprensa, em premiações e eventos literários.

Ainda paira sobre a literatura escrita por mulheres uma sombra de imperfeição, futilidade e irrelevância. O mercado busca lucro e livros que vendam, sem importar o gênero do autor, contanto que seja eficaz em atingir esses objetivos. Mas quando se trata de prestígio as mulheres ainda são compreendidas como autores de segunda categoria, usa-se o termo “literatura feminina” para desmerecer e empobrecer o conteúdo produzido por mulheres.


Por questões históricas, as mulheres permaneceram à sombra dos homens em muitos aspectos, inclusive artísticos e culturais. Para a escritora Márcia Camargos “ainda há a tradição de que a mulher primeiro deve desempenhar seus papeis de dona de casa, mãe e esposa, e com o tempo que sobra faz literatura”, ou seja, a literatura produzida pela mulher é considerada um hobbie, não é considerada uma profissão, portanto não é levada a sério.

A cobertura da imprensa é mais um capítulo à parte. Quando as mulheres são o foco, é comum que se dê mais destaque à sua vida pessoal ou a seus atributos físicos do que ao seu trabalho literário. “Não há uma diferença de qualidade literária entre o homem e a mulher. Existem pequenas diferenças no olhar feminino pelo papel que a mulher desempenha na sociedade, mas isso não influencia a qualidade”, reforça Márcia.


Em contramão à cultura machista a plataforma “She Books, por exemplo, reúne contos e textos curtos produzidos por escritoras e disponibilizados em e-books. Já a “VIDA é uma organização que investiga as percepções decorrentes da literatura feita por mulheres. Uma de suas ações é o VIDA Count, trabalho árduo, em que registram manualmente o destaque que publicações literárias destinaram às autoras mulheres em comparação com o destaque dado aos homens.


A 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas contou com a presença de 6 mulheres e 5 homens e aconteceu entre os dias 1 a 10 de novembro. Dentre elas autora de um do blog Escreva Lola Escreva, um dos maiores blogs feministas no Brasil, Lola Aronovich marcou presença no festival. A escritora feminista, já foi ameaçada de morte e sofreu vários ataques na internet por sua militância feminista, onde denuncia crimes da deep web, causando a sua perseguição. “As pessoas não fazem a menor ideia do que uma ativista passa. Eu não sou atacada por ser quem eu sou, eu sou atacada por ser feminista” afirma Lola.


O evento também contou com a presença de Jarid Arraes, escritora, cordelista e poeta cearense, autora dos livros As lendas de Dandara, Heroínas Negras Brasileiras em 15 córdeis, Um Buraco com meu Nome e Redemoinho quente. A autora vive atualmente em São Paulo e criou o Clube de Escrita Para Mulheres. “É importante ter esses caminhos de tratamento como a arte para você expressar e exorcizar seus tramas” defende Jarid.



Foto: Lenilda Luna/Ascom Ufal

Elvira Barretto, a coordenadora geral da Bienal 2019 defendeu em entrevista que o modelo de criação literário da mulher é uma reprodução do patriarcalismo, olhando mais para o lado da feminilidade tradicional, sendo ela incentivada pela sociedade como o modelo mais honrado. “É diferente de uma perspectiva feminista de literatura, que desloca e resignifica o “ser mulher”, propondo rupturas de fronteiras da literatura como Jarid Arraes, uma jovem negra, feminista e escritora”. Ainda segundo a mesma, trazendo novas sensibilidades sobre ser mulher, os homens veem escritoras como ameaça de poder no lugar que historicamente sempre lhe foi dado privilégio e exclusividade na sua prática.


A pesquisadora Rita Terezinha Schmidt afirma que os autores que escreveram os finais felizes foram os homens. As mulheres tiveram o senso dramático da realidade que os homens nunca tiveram, isso desarticula o estereótipo de que a mulher escreve o romance água com açúcar, ou romances sentimentais. Os homens eram os românticos e estavam pensando numa realidade que não existia.


A Hora da Estrela de Clarice. Quarto de Desepejo de Carolina de Jesus. As Meninas de Lygia Facundes Telles. O Quinze de Rachel de Queiroz. Nossas escritoras brasileiras colocaram dedos nas feridas que nenhum dos nossos escritores homens colocou. E hoje estão reescrevendo a nossa história dentro da literatura.

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