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  • Revista Alagoana

Rastros da destruição: o crime da Braskem em Maceió


O afundamento de quatro bairros na capital alagoana que afetou mais de 50 mil pessoas



Colaboração de Theo Sales



Com um terço na mão, Dênia Valquíria realiza sua diária caminhada pela tarde. Em meio a prédios abandonados e ruas vazias, a senhora realiza sua atividade física em uma área abandonada. Ela é uma das últimas moradoras do Pinheiro, um dos quatro bairros — além de Bebedouro, Mutange e Bom Parto — afetados pelo afundamento do solo causado pela extração de sal-gema pela Braskem. A debandada da região começou em 2018 quando tremores foram sentidos após fortes chuvas. Rachaduras surgiram e o risco de desabamento ameaçou a segurança de milhares de pessoas, forçando-as a deixarem seus lares.


Dênia, porém, decidiu não abandonar seu bairro, onde vive há 41 anos. Segundo conta, os valores oferecidos pela Braskem para comprar sua casa foram muito abaixo do preço avaliado, além de que o auxílio-aluguel oferecido pela empresa não custeia uma residência para morarem os 6 membros da família. Por enquanto, seu lar não está em risco iminente e Dênia segue firme apesar das dificuldades de se morar no Pinheiro atualmente. Segundo a Braskem, o índice de aceitação dos acordos para desocupação das casas é de 99,7%.


“Eu quero um valor justo. Nem mais, nem tão menos como eles colocaram. Tem o valor sentimental que não está nem colocado”, relata. Ela revela que a situação impactou significativamente na saúde de seu marido, um homem de 70 anos. Problemas psicológicos, mas também físicos, são algumas das sequelas que esse trauma causou em diversos moradores que tiveram de deixar suas residências. “Não apenas casas, mas as vidas das pessoas foram destruídas”, lê-se pintado no muro de um lar abandonado.


Dênia nos mostra a rua de seu lar. Apenas três casas permanecem com moradores.


Três anos após o começo dos tremores, essa catástrofe segue afetando a vida das pessoas, tanto daqueles que decidiram permanecer em suas casas, quanto daqueles que foram removidos e forçados a se mudarem. Até o momento, ninguém foi responsabilizado.


Em agosto deste ano, foi lançado o documentário “A Braskem passou por aqui: A catástrofe de Maceió”, mostrando o drama da população frente a esse crime. Trata-se de mais um esforço para divulgar a tragédia em andamento, que ainda não tem a devida repercussão na mídia nacional. Um dos maiores desastres urbanos do Brasil não é foco de atenção por ser em um pequeno estado do Nordeste.



Aqui morava uma família



“Braskem fia da gota destruiu tudo”, comenta um homem que passava. Marcos aponta para a direção de sua rua. Ele viveu por 10 anos com sua esposa e filha em uma casa no bairro do Pinheiro, mas teve de deixá-la devido ao desastre geológico. A foto acima não é da casa de Marcos, mas representa a tristeza vivida por ele e diversas outras famílias da região.


Além de família, justiça é uma palavra comum que estampa os muros dos bairros do Pinheiro, Bebedouro, Mutange e Bom Parto, porém, como afirmam Dênia e Marcos, não há muita esperança de que isso aconteça. A empresa pagou cerca de 1,2 bilhão de reais em indenizações, auxílios financeiros e honorários de advogados, porém, somente no terceiro trimestre de 2021 a Braskem teve lucro líquido de 3,5 bilhões. Até o momento, nenhum presidente, diretor ou responsável da empresa foi preso devido a esse crime socioambiental.


“A população do Pinheiro vai lutar por justiça”, lê-se no muro.



Sonhos destruídos, vidas rachadas



“Sonhos destruídos. Esta casa foi invadida, depredada e está rachada. Quem pagará por isso?” e “25 anos de histórias deixados para trás… Quem pagará por isso?” estão escritos na parede.


Visão por dentro de uma das casas destruídas.



Escombros da Igreja Matriz do Menino Jesus de Praga.





A Chernobyl alagoana


Após tanto tempo abonada, a região está sendo tomada pela vegetação. As construções em ruínas, a tinta descascando, o ar desolado e a escassez de pessoas transformaram os bairros afetados em um cenário apocalíptico. Chernobyl é a referência que vem à mente ao se passar pelas ruas abandonadas.







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