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  • Revista Alagoana

Sabeis o valor de minha existência

Atualizado: 10 de out. de 2020



Texto de Bertrand Morais


Jade Soares entra com passos largos e expressão cansada na Secretaria da Mulher e dos Direitos Humanos do estado de Alagoas, num começo de tarde de setembro. Carregava sacolas nas mãos e, em seu rosto, testa franzida, como quem não aceitasse o passar das horas tão rápido. Eu já estava sentado a sua espera, por volta de meia hora. Ela sabia que estava atrasada, e, após ter-me cumprimentado, desabafou: “estou sem comer até agora e, hoje, não é um dos meus melhores dias” dividindo comigo algumas de suas compras e me fazendo segui-la intuitivamente até o local do evento daquela tarde.


Para chegar até o evento era preciso apenas atravessar para o outro lado da rua e caminhar por um jardim. O local era o Palácio Floriano Peixoto, sede do Governo do Estado. Durante o percurso, falei a Jade para não se importar em ser constantemente observada e trocar umas palavras comigo após o evento. Fazia parte do meu trabalho. Ela não viu problema em minhas condições e pediu para que eu não estranhasse se pouquíssimas pessoas comparecessem ao evento. Era uma segunda-feira, e segundo ela no fim de semana que antecedeu, houve a parada da diversidade em sua cidade natal, e completou: “as manas vão à praia no domingo e bebem muito. Hoje devem estar todas de ressaca”.



Jade Soares no Encontro Regional de Prevenções Combinadas e Estudos do HIV/AIDS em Natal - RN

De origem quilombola, travesti e natural de Santa Luzia do Norte, município da região metropolitana de Maceió, Jade Soares foi nomeada para assumir o cargo de assessora técnica de promoção dos direitos LGBTQ+ da SEMUDH. Três meses é o tempo que está à frente da nova gestão, a qual, nunca antes, foi conduzida por uma pessoa de nível superior incompleto e pertencente a grupos tão sempre marginalizados. Quando a perguntei sobre o possível diferencial que a fez chegar aonde chegou, primeiramente ela dá uma pausa, resgatando da memória a própria trajetória. “Não acredito em um trabalho melhor que outros, tecnicamente falando. Mas em ações de humanização” e conclui de modo assertivo “mas uma coisa é certa; não gosto da zona de conforto, e isso, talvez da um diferencial ao meu trabalho. Vou sempre em busca daqueles que mais precisam de mim e na hora em que carecem, seja nas grotas e periferias, comunidades indígenas e quilombolas, regiões ribeirinhas (...) qualquer lugar mesmo”.


O evento no palácio era um cine debate objetivando a visibilidade bissexual. Ao chegarmos ao espaço reservado para o momento integrador, só havia mais três pessoas, um montador e os outros dois eram organizadores. Jade faria a mediação para a discursão pós-filme. Causou-me estranhamento, o fato do qual se passara uma hora de atraso e não havia público algum a espera. Era o tempo que a organização precisava para os últimos ajustes, até que, aos poucos, foram chegando os convidados, totalizando comigo, nove integrantes.

Em meio ao grupo, uma pessoa se destacava pelo modo de lidar com os demais e em especial com Jade. Lírio Negro, sim; esse é o nome social da pessoa, cuja é não binária, ou seja, sua identidade de gênero não é nem inteiramente masculina nem feminina. Lírio tem ar atrapalhado e modo desengonçado em corpo de mulher.


Levei certo tempo para me adaptar a chamá-lo no pronome masculino. De fácil sociabilização, consegue ora ou outra, falar tanto ao ponto de não conseguir deixar mais ninguém falar. Porém, conseguiu garantir um espaço especial no coração de Jade, que até o chama de marido, ou melhor – segundo marido - porque a mesma já é casada.

Jade notoriamente tem sempre muito o que falar ou exemplificar. De modo sensato, consegue ouvir a quem lhe está próxima e falar no momento oportuno. Assim fluiu o debate sobre o filme, e, que ao longo da conversa, foi entrando por anseios e necessidades individuais de cada um ali presente de serem ouvidos. No momento em que Jade, como mediadora, teve a palavra permitida, enfatizou a necessidade de proteção e voz aos menos favorecidos. Também houve queixa.

Disse claramente se sentir incomodada em ser identificada como mulher trans, onde na verdade, diz considerar-se mulher travesti, e explica: “Na maior parte dos casos, pessoas trans não aceitam seu corpo biológico, e eu me acho linda e maravilhosa do jeito que nasci” e acrescenta satisfeita “só decidi ser Jade Soares, a qual é uma identidade minha e deve ser respeitada”.

A identidade que Jade fala é o gênero em que se ela se identificara e o uso do nome social, assegurado por lei. De forma bem perspicaz e ágil, ela consegue falar de direitos LGBTQ+ com seus respectivos exemplos bem empregados, que, por vezes, faz-nos pensar além do que estamos acostumados refletir. Pensei o quão incrível ela transmitia ser, mesmo com pouco “estudo”. Jade é de fácil amizade. Em poucas horas já conversávamos de modo informal, me tirando boas gargalhadas. Uma vasta opção de eventos também me foi passado, fazendo-me perceber que me faltava tempo e disposição, assim como a dela, para dar conta de tudo. A todo o momento, direta e indiretamente ela se queixava do cansaço que a nova rotina lhe proporcionara, mas afirmava fazer tudo por amor e que se sua atual gestão acabasse naquele momento, estaria satisfeita, porque fez tudo o que pôde.


Mas a assessora técnica tem ainda um grande sonho para concretizar durante sua gestão: a construção da casa de acolhimento e centro de atendimento a população LGBTQ+ em Alagoas. Mas para que serve esse tipo de serviço? Ele é voltado para todo e qualquer LGBT rejeitado por familiares e que precisam de acolhida. Seu projeto estrutural é sempre modificado de acordo com a necessidade e diversidade de seu público.

Você deve estar se perguntando, mas quais foram os sonhos dela que já foram realizados? Muitos. O primeiro a ser citado foi a história a qual ela fez questão em abrir nossa conversa olho a olho. Enquanto ela sofria agressão doméstica de seu marido e pregava um discurso de empoderamento e de políticas públicas, ela não se sentia honesta com os outros nem com ela mesma. Um relacionamento que durou seis anos, devido à naturalidade do fato que ela encarava. Ela dissera que todas as mulheres de gerações que antecederam a dela, apanhavam. Hoje, já completara 16 anos de libertação do ex marido.


Outro marco foi a construção de uma ONG LGBT dentro de seu quilombo. Denominada de metamorfose, como o próprio nome indica, possibilitou a oportunidade de outras pessoas, como Jade, de se transformar em quem realmente é. A mudança também ocorreu no pensamento de quem ali convivia em comunidade; ao longo de anos, preconceitos foram combatidos ou diminuídos. Ainda teve o reconhecimento como a primeira família do país formada por uma trans. O reconhecimento abriu ouras portas, como a da adesão a programas sociais, a exemplo do Bolsa Família, permitindo a expansão do serviço para os demais que, outrora, não tinham o respectivo direito.


Durante o evento de visibilidade bissexual, de forma espontânea, relatou sintomas de uma virose. A priori não dei muita atenção, por achar que se tratava de algo passageiro, porque uma mulher como aquela, certamente não adoeceria fácil, mas, não deu outra, um dia após o relato, através de rede social, ela me avisou que estaria impossibilitada de ações externas, porque havia piorado. Logo, me despertou a curiosidade de saber se exatamente naquele dia, por um acaso, aparecesse uma ocorrência que exigisse sua aptidão para estar por perto. “Eu direcionaria o caso para meu superintendente, e no menor sinal de melhora, entraria em campo para ajudar, mas, ainda bem, que não houve nenhuma”, conseguindo me convencer mesmo que virtualmente que se tratava de uma verdade absoluta. Esse é o feitio de Jade Soares.

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