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  • Revista Alagoana

Sonhar, escrever e outras formas de cavar segredos, com Érika Santos




Texto de Nathália Bezerra





Nathália - Olá Érika! Muito feliz de tu ter abraçado o convite de passarmos a semana conversando por aqui. é sempre surpreendente e lindo os rumos que essa escrita-conjunta vai tomando forma, vai tomando corpo. ao longo dos dias, vamos criando nossos ritmos. me conta um pouquinho de como se começou tua relação com a escrita?


Érika - Minha relação com a escrita começou recente, há quatro anos eu não sabia muito que rumo eu queria dar pra meus textos. antes de escrever eu já me interessava por literatura, mas não me aventurava a escrever. quando entrei no curso de letras foi que me despertei pra escrita. me interessou muito estudar formas, modos e as possibilidades da palavra. a partir daí me envolvi em várias categorias de texto, até descobrir que minha paixão é a poesia. trabalhar as camadas do sentido na palavra me fascina.


É bonita a forma como tu fala. Como se antes de escrever, a paixão pela literatura já estivesse ali latejando. tu poderia dizer alguns dos textos, obras, escritoras/es que te chegaram nesses tempos, de quando tu começou a escrever? gosto demais de ouvir dessa hora em que se descobre a paixão, o ímpeto ou a hora inevitável de se apaixonar por alguma coisa. me conta como tu sentiu que era essa a hora, ou como a poesia foi virando paixão nos teus cantos?pode compartilhar trechos, pedaços e o que mais tu quiser trazer! (até diria que esse impulso da escrita, quando vem, é desnorteador até que novos mapas ou formas de encontrar caminhos vão se criando).


Oi, querida. olha, eu li bastante coisa nesses tempos de escrita. mas tem dois poetas que quando leio parece sempre a primeira vez, uma descoberta: o Ferreira Gullar - em Poema Sujo, e a Orides em diversos poemas dela, a Hilda também - então são três haha.

são poetas que me chegam muito fundo, me parece que cada palavra tem um lugar certo onde se encaixam, sabe.

tem vários outros, assim, que gosto demais! Mas no início, pra mim, esses foram especiais. Gosto muito de um trecho do poema sujo que virou epígrafe do meu livro - Procurar o mar.

que diz assim:

e por todas as partes

se fabricava a noite

que nos envenenaria de jasmim



há um poema da Hilda que acho que é dos que eu mais amo, vou deixar ele aqui:


Se te pareço noturna e imperfeita

Olha-me de novo.

Porque esta noite

Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água

Desejasse


Escapar de sua casa que é o rio

E deslizando apenas, nem tocar a margem.


Te olhei. E há um tempo

Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero

Que o teu corpo de água mais fraterno

Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta


Olha-me de novo. Com menos altivez.

E mais atento.

__

eu não sei te dizer um da Orides que gosto, porque gosto de vários. no fim das contas muitos escritos me atravessam demais, mas feito toda poeta brega tenho meus poetas mortos favoritos. diga-se de passagem sempre estou lendo contemporâneos 💖


Fui até pegar de novo o livro vermelho que tenho de Hilda e um caderno que tenho onde escrevo incansavelmente alguns dos trechos do poema sujo que também eu carrego pelos cantos. também tenho muito carinho por esse texto e é incrível como quando revisito, sempre tem algo diferente que me chama a atenção. é sempre um susto diferente. tem um trecho da Hilda Hist em “O poeta inventa viagem, retorno e sofre de saudade” que pra mim me toca em pontos necessários que me dizem um monte do tanto que eu mesma faço com a escrita. Acho que o susto vem daí, quando a gente encontra algo que parece nosso em outra pessoa, em outro lugar. Na parte VII (e eu gosto mais de números ímpares) ela diz:

“Essa lua enlutada, esse desassossego

A convulsão de dentro, ilharga

Dentro da solidão, corpo morrendo

Tudo isto te devo. E eram tão vastas

As coisas planejadas, navios,

muralhas de marfim, palavras largas

consentimento sempre. e seria dezembro”.

Aproveitando o título do texto de Hilda, me conta como é pra tu e como aparecem tuas invenções de viagem, de retorno e saudade na tua escrita?


Nat, eu sou muito besta com as coisas, sabe - no sentido de que me fascino pelas coisas com muita facilidade - e isso é meu ascendente em gêmeos falando haha. mas me desprendo rápido também das coisas e sigo em frente - e esse é meu sol em touro falando. o que quero dizer é que minhas invenções e viagens me atraem muito, eu gosto de tá no processo com intensidade, mas isso é só parte da viagem. assim como a hilda diz, sob a perspectiva do eu lírico, é preciso retornar, porque o retorno faz a gente criar novas possibilidades. eu sou apaixonada no que me faz retornar, porque é uma espécie de porto, onde eu posso guardar tudo e revisitar tudo também. isso aparece demais nos meus escritos, porque - vou te contar um segredo - meus escritos, quase todos, são segredos, são reflexos dos meus amores, das minhas decepções, dos meus desejos, etc. no final das contas sou uma poeta besta, mas que me proponho a transformar minha viagens, minhas saudades e meus retornos em sentidos que se dissipam no mundo literário e ocupam lá um lugar só deles. e esse lugar cresce e cresce e tem ficado tão bonito.


Assim como tu, também tenho um fascínio gigante pela possibilidade das várias camadas de sentido na palavra. parece que pela poesia, essa chance tão rara e tão sutil pode construir (e destruir) múltiplos jeitos de usar a palavra. me conta também sobre as palavras que tu acha que mais se repetem ou que tu menos usa na tua escrita? ou ainda se tem alguma palavra que te intriga, que te causa estranhamento, ou que tu não costume usar. ou de repente alguma palavra que tu tem guardada pra escrever sobre ela um dia? (sou apaixonada pelos tantos caminhos possíveis)

Olha, eu uso, nesse primeiro livro que publiquei, bastante a palavra azul e muitos caminhos são atravessados pela água e pela noite.

talvez porque eu seja filha de Oxum, mas também porque Maceió traz essas imagens pra gente, né. o segundo livro que escrevi - ainda não publicado - também tem muita água.

sobre palavras que uso pouco, eu acho que evito mesmo usar palavras que trazem imagens mais sujas, como o Richard Plácido faz muito nos textos dele, por exemplo, mas não tenho uma palavra específica, não.

o outro livro no qual estou trabalhando agora tem me trazido muitas outras possibilidades de trabalhar, tenho tentado estudar outras imagens, sons e modos de se dizer as coisas.

me chama a atenção essas mudanças e, esses dias, eu me propus a escrever sobre uma palavra que gosto e não gosto muito, que é a palavra Karma. vou deixar aqui a primeira versão do poema (ainda em construção) no qual uso a estratégia de usar a palavra para desambientar os sentidos nela pré-construídos.

tenho feito bastante isso neste último livro:

_________________

A palavra necessária


escrevo a palavra desnecessária

a que não faz falta

mas preciso”

Felipe Benicio


eu sinto muita raiva da palavra karma

do mover da língua

sua língua que foge ao véu palatino

a expressão séria dos olhos que também parecem fugir

o mover das mãos

leves

uma mentira que não cabe

numa moldura grossa, antiga

karma forma a trama de fios tão bem tecidos

envolver uma singela supernova

porta kármica dos dias

entre uma conversa e outra conversa com você

agora todas as palavras imitam um som de karma

fazer crescer no encontro entre mãos

a palavra necessária

remontar as ondas da palavra

até meu karma virar

um dia inteiro ao teu lado


Te agradeço muito por dividir um poema teu, e em construção, que é ainda mais íntimo. nas mãos, tu tem esse exercício de desambientar a palavra pra que se chegue em outros cantos e esse, com o karma, é de chegar no céu da boca e na ponta do queixo. vejo a palavra necessária quase feito um espelho atravessado. é muito lindo esse teu poema. o encanto pela água, derramando a palavra pelos cantos, também me acontece por aqui. tenho um arquivo que chama “como água para parafusos” onde fui tentando reunir algumas dessas imagens, molhadas ou não. sou cuidadosamente desorganizada na escrita e logo depois os trechos estão misturados, as coisas estão soltas e começa um novelo de abas e cadernos abertos até que se nasça um texto. nem sempre é assim, mas ultimamente acho que tenho precisado escrever muitos pedaços até que se vire um pedaço maior. tenho começado por fragmentos e frases soltas. onde tu costuma guardar e escrever teus rascunhos, guardar teus pedaços e se tu prefere fazer à mão, no papel, em cadernos, em arquivos? me conta um pouquinho de como tu vai compondo teus escritos e rascunhos?


muito massa esse teu processo, Nathália. acho que a desordem também é uma forma de ordenar as coisas, principalmente, quando se trata da palavra.

olha, eu sou muito tradicional pra escrever, no sentido de ter de organizar primeiro o espaço. esses dias tava comentando aqui em casa o motivo de eu gostar tanto de cozinhar. o procedimento que tenho quando preparo um alimento é o mesmo pra escrever: primeiro monto o espaço, crio o título do livro, monto a quantidade de páginas segundo a quantidade de poemas que pretendo escrever, coloco página com o lugar da epígrafe, dedicatória, simulo um livro bem tradicional mesmo. daí em diante começo a escrever e as coisas vão mudando diante das necessidades dos textos. vou sempre revisando e revisitando. tem uma história de que quanto mais se cozinha um prato mais a pessoa se aperfeiçoa em fazê-lo, né. é isso!

eu não escrevo à mão, em caderno físico, somente no arquivo, porque gosto de trabalhar a possibilidade geográfica da página.

e meu prato favorito é macarrão com alho e óleo (mas uso azeite rs).

no fim das contas escrever não é um prato tão complicado, não pra mim.


É muito interessante essa analogia tua entre a escrita e culinária, sobretudo porque talvez as duas coisas sejam sobre transformações de matéria: temperatura, textura, sabor, cozimento, afeto, tempo. acredito que o exercício da escrita envolva (bastante) mesmo desse procedimento de que a palavra vire outras (várias) coisas a depender dos preparos, dos procedimentos. quando tu fala sobre esse trabalho com a possibilidade geográfica da página, acho algo bastante valioso no sentido de se pensar a palavra também nesse aspecto da visualidade. como tu vai construindo, no arquivo, essas formas e cartografias de um texto diante da página?


oi, querida. gosto muito do jeito que vc capta as coisas por aqui, esse papo é precioso.

sobre a geografia da página, tento me guiar pelo som. nem sempre a quebra de verso me parece suficiente para atender aos desejos da palavra, do verso. me parece um pedido do texto que algo se desloque, se afaste ou se aproxime. assim eu tento ir guiando o texto pela página. certa vez, numa oficina, Marcelino Freire me falou que meus poemas pareciam ilustrações ou fotografias; imagens muito vivas. acho que isso se dá também pelo movimento da palavra na página. sem falar que é muito bom brincar com essas possibilidades também. no final, eu sempre acho bonito o texto andar na página.


Uma coisa que me encanta é que as perguntas nascem ao longo dos dias e as perguntas também. acredito que muitas outras coisas nasçam num intervalo de tempo contado em dias ímpares, contado a sete pares. queria muito te ouvir contando: como é pra tu quando nasce um texto?


o texto nasce antes de se saber texto, ele caminha comigo o tempo todo, me inquieta por dias, me tira o sono. é como um quebra-cabeça: vão surgindo partes, sons, imagens, movimento. até que o texto se concretiza em objeto, depois disso começo a trabalhar nele de fato; a revisar, cortar, substituir. geralmente guardo insights ao longo dos dias. tenho umas pastinhas no drive com “palavras”, “metáforas”, “versos”, etc, onde consigo guardar os instantes que percebo o texto se montando. exercito dessa forma pra não perder as pistas do texto. às vezes escrevo o texto de uma vez, sem auxílio das pastinhas, mas sei que tem muita coisa do que guardei na caixinha da cabeça: filmes, performances que assisti, músicas que escutei, conversas que tive e até leituras de outros poemas. no mais, reviso bastante um texto. é bem difícil me desapegar dele.


É como se o texto já tivesse raiz na gente antes mesmo de existir: e criam-se as lacunas, as oscilações, as imagens. penso também que antes de ser texto (ou antes de ser palavra), era outra coisa e a gente que escreve vai tentando encontrar jeitos de forçar essa língua nossa até que vire algo. vão junto os retalhos (nossos, dos outros, da vida, do mundo) e eu gosto demais de ouvir essa parte de como tu vai registrando ao longo do tempo em tuas pastinhas as tuas montagens do texto, antes de ser. quais as formas que tu vai recolhendo teus pedaços de cotidiano pra escrever?


eu sonho muito, durmo pouquíssimo, mas sonho demais, e meus sonhos são muito longos e nítidos - essa é uma das formas através das quais o mundo espiritual se comunica comigo - então isso me ajuda muito a escrever. porque a linguagem do sonho vem pronta pro poema. ela destroça os sentidos que a gente conhece e esse material é ferramenta de poeta.

pra mim funciona muito.

então muito do que escrevo vem pelo sonho, e, quando não, vem pelo dia ou pela noite. eu sempre tenho a sensação de que a palavra, a imagem, o som, o movimento é dado por uma conexão entre nós e o cosmo. por isso escrevo que "Procurar o mar é exercício noturno".

pra mim, o trabalho é mergulhar no sonho das coisas e encontrar lá outro significado ou o mesmo significado com versões diferentes.

é se incomodar mesmo com o que tá pronto e acabado.

por isso a noite, por isso o mar e por isso o sonho.

porque a palavra é um ciclo e a gente precisa descobrir nossa forma de regular ela. eu me organizo assim, entre um sonho e outro. seguindo os ensinamentos de Exú.

caminhar por todo canto, ser um e ser vários.


Me parece às vezes que o sonho tem uma linguagem própria, quase como se fosse uma outra língua que a gente ainda não aprendeu. a forma como tu diz de tua escrita é muito forte e carrega junto dela teus pedaços de mundo. também não sabia dos acontecimentos entre os sonhos longos e nítidos, as pessoas que escrevem e pessoas religiosas de matriz africana, essa forma de comunicação que também é espiritual. te agradeço por dividir tanto, por me contar teus segredos. no sonho, parece que é ali, naquela hora noturna e frágil, que a palavra se conecta e desconecta dos sentidos, das significações. fico do teu lado em dizer que esse é um exercício necessário em poesia, em criação poética. tenho uma amiga artista visual e escritora, a Lia Petrelli, que me conta muito das escritas dela em sonho (dormindo ou acordada) e ela costuma ter um caderno ao lado da cama onde escreve os pedaços noturnos, de um jeito que nem sempre é só de palavra que se contam os sonhos, são povoados por imagens. talvez o sonho traga um pouco disso que talvez nos convida pra uma não-escrita também. como tu registra teus sonhos de olhos abertos? (queria muito te ler sonhando, também. se tu tiver algum texto que aconteceu, começou ou terminou depois de sonhar, me conta também?)


É isso, Nat. muito massa esse papo! tô amando.

olha, eu, geralmente, registro no drive, assim que acordo pra não esquecer. o processo de esquecimento, de perda mesmo, no texto é característico do sonho. o fragmento, o "acho", a mistura, enfim. vários textos os quais escrevi nesse primeiro livro são trabalhados com essa perspectiva, e outras mais que a gente percebe quando escreve.

tem um que gosto muito e traz essa coisa do esquecer, de ser flashs do que se lembra no acordar. Vou deixar aqui um que escrevi na pasta de sonhos e depois usei ele como processo criativo, espero que tu goste:


o que escrevi sobre o sonho:

"Sonho 18: sonhei com um homem na praia, nu e de meias nos pés. tinha um guarda-roupas atrás dele. ele tinha caído do céu dentro do guarda-roupa. depois o homem tava com uma caixa na cabeça. ele só ficava parado"


o poema:

o astronauta da saudade com a boca toda vermelha


um dia sonhei com um homem

estacionado no mar

o homem estacionado no mar

sentia dores nos joelhos

estava pronto e cinza

de meias nos pés e capacete branco


o homem pintava os lábios e

sentia um vento na pele

um novo vento esparso e azul


um dia o homem estacionado

abriu os olhos e o mar vazio

o mar nas pernas do homem

soprava uma lua cor de astro

veludo e estrelas


um dia sonhei com um homem

o homem pintava os lábios

deitava homem dormia pássaro


Logo nas primeiras linhas da tua resposta parei pra ficar pensando em algo que tu disse que o procedimento de perda e esquecimento no texto é característico do sonho. fiquei pensando em como a escrita também talvez seja um exercício de pequenos abandonos, acontecendo toda vez que a gente desiste de dizer algo de determinada forma. tem um trecho da Clarice em sopro de vida em que ela diz que a arte de abandonar não é ensinada a ninguém, e talvez escrevendo a gente precise fazer esse exercício: abandonar, desistir. mas também no de insistir em fazer uma tentativa, quando não há. me conta como é pra tu esse processo de abandonar ou desistir de um texto ou de uma ideia, se tu em algum momento retorna pra algum texto que deixou pra trás. ou se tu costuma reescrever algo pra dizer de outro jeito?


eu acredito muito no texto como objeto de um mundo particular. acho que sempre que escrevemos um poema abandonamos algo que vai junto com ele. então, o texto vai nos dizendo seus próprios caminhos ao longo do processo. no primeiro livro, o Procurar o mar, eu tinha 33 poemas para a composição, depois de um tempo, ele ficou com 30 e depois, por fim, com 28. eu sou muito da mística de que nada é por acaso. desisti de alguns poemas, os quais publiquei em outros lugares depois, e alguns ainda estão guardados esperando destino. não me arrependo em abandoná-los, pelo contrário, acho que são possibilidades de novos livros. eu os revisito sempre que posso. mas também os esqueço com a mesma frequência.


É incrível a forma como o sonho cria imagens e faz essa colagem de não-sentidos. me encanta muito esse procedimento de criação que condensa e possibilita a coexistência de absurdos, de retalhos, de aparentes contradições. como é bonito de ver a forma com que tu fez do homem caído junto ao mar um astronauta da saudade. me lembra uma narrativa, uma história contada. e eu gosto demais quando a poesia me faz, literalmente, mergulhar em uma cena. quase sempre quando converso com pessoas que escrevem poesia, gosto de perguntar: tu também escreve em prosa? como tu vê as criações em prosa, a narração e o que tu costuma ou gosta de ler neste gênero literário?


eu escrevo prosa, sim. mas, comentei até esses dias que me considero mais poeta que escritora. acho que o termo escritora abre mais possibilidades de estudo da escrita, e eu gosto de fazer o que eu gosto - embora raramente seja possível rs. eu gosto de escrever poesia, gosto do muito que se pode com o pouco que o poema oferece e vice-versa. sendo assim, gosto muito de ler poesia, mas adoro a prosa que caminha pelo poético. adoro como a Virgínia Woolf escolhe contar as coisas, tão sonora e detalhadamente. gosto muito de como Aline Bei faz isso também. minha memória é péssima pra falar dos títulos, mas é nesse caminho. eu gosto de saber da expansão da escrita, saber que na escrita em prosa também há um leitor de poesia.


Deixar um texto ir é também uma das partes mais difíceis e dolorosas pra mim. acho que gosto de dizer que um texto nasce porque carrega junto uma ideia de que algo vai embora da gente pra respirar em outros cantos. dá uma ideia de deixar que o texto sobreviva sem as nossas mãos, e tenho pra mim que sempre vou me demorar na sensação de que um texto ficou pronto, de que não há ali o que escrever. talvez a escrita seja uma coisa inacabada, não sei. me conta um pouquinho de como é pra tu esse processo de deixar ir um texto?


oi, Nathalia. olha, isso de deixar o texto ir é bem complicado pra mim também. geralmente eu peço pro Richard ler quando isso começa, e depois de algumas leituras e revisão ele vai se perdendo de mim. depois disso parto para outro texto, mas sempre o revisito, sabe. e assim vai. cada vez mais vou deixando, até chegar um momento em que gosto muito dele ou não gosto mas sei que ele é bom. e vai rolando desse jeito.

tenho um texto que, pensando nisso agora, pode ser lido como esse processo criação e criador. vou deixar aqui - se for permitido. espero que goste! tô adorando esse papo. beijo e até amanhã 💖

___________________

o que se perde de mim


o que se perde de mim tem som rubro


e s t i l h a ç o

& vagão


seu mover enlaça o choro num movimento azul

tal quem desabotoa o lábio ponto a ponto

a procura da mancha

que

a quatro dias ocupa o mesmo lugar


porém

não me peça pra responder

se é chuva ou lama

o que sinto nesses dias


porque tudo que alcanço

tem cheiro de sangue e água morna


Tem sido tão bom conhecer tua escrita pela tua conversa e pelos teus textos, Érika. é como seu teus processos de criação fossem na cadência da tua fala, tivessem um ritmo próprio, feito um rio que corre. indo junto com esse texto teu, talvez escrever seja mesmo esse exercício de tentar fazer alguma coisa com nossas partes perdidas. tem uma coisa interessante que gosto de ver de perto quando leio poesia que é a escolha das quebras dos textos, os lugares onde uma frase se parte. não deixei de reparar no teu estilhaço estilhaçado. às vezes costumo tentar dizer em voz alta pra ver se o som me diz alguma coisa sobre essa hora de partir. penso que não ir até o final da linha nos coloca nessa decisão contínua de dizer até qual palavra aquela linha vai. como tu vai escolhendo teus cantos de quebra? tu tem algum exercicio, alguma métrica própria, alguma forma que tu encontrou de fazer essas escolhas nos teus versos?


Esse processo é bem mais sobre leitura, vou fazendo a leitura em voz alta e vendo onde quero quebrar. às vezes peço pra outras pessoas lerem pra ouvir. Mas é muito do som mesmo.

outras vezes quando a ideia é desconcertar, vem uma quebra de ritmo e de frequência, feito uma ruptura. mas não tenho uma técnica única, vou vendo como a coisa vai se construindo e estudando possibilidades. mas eu adoro trabalhar o som, sou fã da escuta, da música. tudo que é som me interessa. aprendo muito com a música brasileira. às vezes, quase sempre, na verdade, ouço uma quebra ou uma forma de dizer e imito o som no meu verso. sou muito atenta com o que escuto e com o que vejo. Amo estudar essas coisas.


Pela poesia a gente precisa aprender formas de pegar ou extrair algo do mundo, do que nos rodeia. às vezes é assim bem sensorial mesmo, e é necessária essa atenção (presente e flutuante também) de pegar os sons, as formas, os lugares, os sentidos. falamos de sonho e desse procedimento que se faz dormindo e acordada. e agora, voltando a dizer do som e do ritmo em um texto poético, penso que talvez seja também uma outra forma de proceder à uma escuta do texto. como é que tu vê o ritmo nos teus poemas, e como (ou se) tu observa a presença (ou ausência) de rimas ou métricas?


essa semana eu participei de um sarau promovido pelo grêmio de uma escola pública, aqui de Maceió, e uma das perguntas dos estudantes foi: porque você escolhe escrever tão subjetivamente?

eu gosto de desconstruir essa ideia de que só pode haver no texto uma identidade pré-determinada a partir do eu que a sociedade cria pra gente - me refiro ao papel que remetem a uma mulher negra, as quais tem de ser sempre bravas, fortes e, se “intelectuais”, intelectuais à luz das propostas que envolvem estudos sobre “raça”. eu não acredito que minha identidade se afaste de mim quando escrevo. entretanto, tento, nas vias possíveis, direcionar escolhas na minha escrita. eu sou uma pessoa que acredita muito no amor romântico, por exemplo, dentro das suas especificidades. então, a escolha de ritmos, rimas, métrica ou ausência delas fazem parte desse ambiente avesso ao “meu espaço”.


Tive uma passagem ou uma viagem muito longa e distante com uma coisa que tu me contou por aqui, de que teus escritos são quase todos segredos. pensei que talvez escrever como quem conta um segredo (uma saudade, um amor, uma memória) talvez crie uma necessidade de movimento: e vêm as quebras, vêm o poema quase como se contasse esse segredo pra gente antes (assim como o sonho, que também nos manda notícias primeiro). vou te contar de um sonho-segredo também. aconteceu dia desses, enquanto escrevíamos aqui e me lembrei de quando te perguntei se tu já havia escrito sobre algum sonho teu antes. não tem título e eu sempre me demoro em dar nome às coisas:


“hoje sonhei com escamas

flutuamos por um precipício

o gosto, tua garganta breve

um instante antes de esfriar

restava um corpo esticado


uma derrota depois éramos

feito uma mitologia: fundar

uma língua na ponta do teu olho

nessa hora frágil, abraçar um deserto

com a força de quem amolece”


sinto que trocamos tantos segredos nossos por esses dias. assim como tu, também acredito que a escrita seja essa teimosia insistente do retorno, essa ânsia de voltar a algum lugar (ainda que seja breve). te agradeço pelas tuas palavras, todas elas. e te digo de como é bonito te ver aqui, com tuas letras azuis, teu olhar sincero, tua escrita em peito e mar aberto. daqui, torço pra que tenhamos essa coragem sempre besta com as coisas secretas.


mando um abraço bem apertado e agradecido pela tua companhia!


antes da gente ir, deixa aqui onde podemos encontrar mais do teu trabalho? (se tu tiver locais onde escreve/publica textos, se tiver livros à venda onde é possível adquirir, formas de te encontrar por aí, como instagram, site, etc)


certo. lá vai:

insta: @erika.santos_____

instabio: https://instabio.cc/erikasantos

onde comprar meu livro: pode comprar na Novo Jardim Livraria e Café ou diretamente comigo, ou:

https://www.editorapenalux.com.br/loja/poesia/procurar-o-mar-e-exercicio-nortuno?filter=&limit=75

https://www.extra.com.br/procurar-o-mar-e-exercicio-noturno/p/1532934038

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