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  • Revista Alagoana

"Subversivo porque eu canto rap"

Atualizado: 1 de out. de 2020


Texto de Lícia Souto


O sol morno do finalzinho da tarde ilumina os rostos cansados e impacientes que aguardam no ponto de ônibus. Algumas senhoras esperam sentadas, outras pessoas esperam de pé, observando o movimento dos carros passando. Dois jovens esguios, com blusas pretas iguais e uma caixinha de som conversam e dão risadas. Quando o restinho de sol se despede, escurecendo a longa avenida, o ônibus que vou embarcar finalmente chega. Os dois rapazes acenam para o motorista e pedem que ele abra as portas de trás. E assim eles embarcam.


Em meio às pessoas sentadas, outras de pé, com sacolas, e no calor dentro do ônibus velho, os jovens pedem um boa tarde e os passageiros respondem sem muito fervor. Eles conversam entre si, dizendo que não conseguiram escutar direito e novamente pedem um boa tarde fervoroso, e as pessoas respondem em uníssono com mais energia. Da caixinha de som sai o ritmo que acompanha as rimas que os dois rapazes vão inventando a partir da observação de características dos passageiros. Cor da blusa de um, o sorriso do outro, a bolsa vermelha de uma senhora e até os cachos dos meus cabelos viram rimas espalhadas pelo ônibus. As palavras ritmadas dos jovens chamam atenção dos passageiros. Até quem está usando fones de ouvido retira para conferir a comoção, enquanto eles arrancam risadas e descontraem o clima pesaroso do transporte no fim do expediente. Há quem não dê atenção e observe pela janela as ruas passando. Mas no fim da viagem, eles recebem palmas animadas e alguns trocados.


“Atenção, atenção! Muito obrigada pela atenção. Então sabe, meu mano, mais um dia de rima, peguei o chapéu e não esqueço da caixinha. Há! É só mais um sujeito entrando pela porta de trás para quebrar seu preconceito. Mas tenha muita calma, não é um assalto...”, diz uma das letras cantadas pelos garotos. E é exatamente assim que o Coletivo Rap & Movimento (Rapem) trabalha com as palavras, levando as rimas e a cultura do hip-hop pelas ruas da capital alagoana.



Atualmente composto por seis integrantes que atendem por diferentes nomes artísticos: Abraão (Duende Verde), Fellipe (Freellipe), Gustavo (Obama), João (Conca), Josias (Tripa), Michel (Skinny), o grupo foi fundado em 12 de junho de 2018. Eles contam que a intenção de começar esse projeto era ter o freestyle como trabalho dentro do transporte público. Nessa época, já existiam outros MCs que faziam rimas dentro dos ônibus, mas até então, ninguém fazia de forma organizada e com algum propósito.


Nesse contexto, Obama (Gustavo) e Freellipe (Fellipe), durante um dia a tarde na Praça dos Martírios, localizada no Centro de Maceió, trocaram ideias e chegaram a um consenso sobre a forma ideal de levar adiante esse trabalho, criando algo que se tornasse referência. Nessa mesma tarde duas coisas aconteceram: surgiu o nome ‘Rapem’ e, no primeiro ônibus que avistaram, os rapazes embarcaram e começaram o trabalho que repercutiria até hoje.


A escolha de levar o trabalho para dentro do transporte público foi devido ao fluxo imenso de pessoas, além do intuito de obter retorno financeiro diariamente. O grupo também chegou à conclusão de que os ônibus eram uma maneira de encontrar muitas pessoas que, em meio aos seus afazeres pessoais, provavelmente não teriam tempo de ir a algum evento voltado a cultura do hip-hop. Então eles foram até essas pessoas e fizeram parte da rotina delas, de alguma forma. Atualmente a página do grupo no Instagram tem 6 mil seguidores, mas nem todo começo é fácil. Eles acreditam que a maior dificuldade em começar foi enfrentar as diferenças sociais. A maneira como se vestem e o diálogo aberto pelas letras do rap nem sempre são bem recebidos. O grupo conta que diversas vezes puderam notar uma falta de empatia por parte dos passageiros, desde palavras de frustração até ameaças.


Mas conforme foram interagindo, eles perceberam que os passageiros começaram a compreender essas informações, a compreender a função e importância dessa cultura. Hoje eles observam as pessoas mais suscetíveis a dedicarem seu tempo para apoia-los de alguma forma, seja ela financeira, através da divulgação do trabalho nas redes sociais, ou até mesmo comprando produtos com a marca do grupo, como camisetas e adesivos. Para eles o querer vai muito além das barreiras e o propósito nunca foi desistir. Eles acreditam que reeducar a sociedade é um trabalho árduo, mas que carregam essa função no dia-a-dia da melhor forma.


Para Obama, a maior vantagem desse crescimento é poder ter o controle do trabalho, pelo fato de dependerem apenas deles mesmos para gerar renda, o que, inclusive, faz com que eles tenham uma visão mais profissional dessa função, fazendo com que acreditem na própria independência. Além disso, o feedback das pessoas é algo muito satisfatório, as palavras de felicidade são algo que nem o dinheiro paga. É um retorno muito positivo e marcante para o grupo. Apesar do rap e o hip-hop - como produtos culturais de raízes negras - sempre terem sido vistos de forma mais marginalizada pela sociedade, eles acreditam que hoje isso é muito relativo, porque as pessoas pensam diferente e estão mais abertas para ouvir e entender a cultura do hip-hop difundida nas ruas da cidade.


Como referência, eles adotaram um Coletivo de São Paulo que faz o mesmo tipo de trabalho no transporte público, só que utilizando o metrô; ver esse trabalho dando certo numa cidade grande como SP foi um grande incentivo para eles. Hoje, o grupo tem uma parceria com um Coletivo chamado Rimadores do Vagão, e tem também como referências grupos da terra, como Reles no Rules, Tequilla Bomb e Família 33, que trabalham em seu cotidiano questões socioculturais de Alagoas.


Eles visualizam que o futuro do rap e do hip-hop em Alagoas é promissor, porque existem muito rappers e MCs bons aqui. Em 2019, inclusive, o estado foi representado por dois integrantes do Coletivo Rapem no Duelo Nacional de MCs que aconteceu em Belo Horizonte (MG). Além disso, o grupo observa que cada vez mais mulheres aparecem para ocupar a cena musical, apesar da cultura machista que existe em torno do gênero. Por isso eles enxergam que o cenário cresce a cada dia, tornando mais palpável esse futuro próspero para o movimento do hip-hop na cena alagoana.


As condições sanitárias decorrentes da pandemia do novo coronavírus paralisou grande parte das atividades culturais nas ruas do mundo todo; diversos segmentos artísticos foram e continuam sendo afetados por isso. Para o Rapem não foi diferente.

No início eles ficaram dispersos, sem poder trabalhar, tendo em vista que o acesso ao público alvo era através dos ônibus. Se adequar a essas condições foi um momento difícil, que resultou na paralisação das apresentações por 3 meses, até avaliar o momento adequado para retomar as atividades. Agora, nesse momento de recomeços, o grupo está se inscrevendo em editais, uma das alternativas para obter retorno financeiro emergencial. Além dos editais, eles estão fechando parcerias com empresas locais, como o Salão AfroYalla e a Produtora Breeze, que, de acordo com eles, sempre somaram de forma horizontal com os planos do Rapem para o futuro.


O sonho do estúdio próprio também continua nas pautas do grupo, que aos poucos estão conseguindo os equipamentos para montá-lo e poder produzir de forma mais profissional. Por fim e sem arrodeio, eles contam que estão desenvolvendo, paralelo a isso, outros projetos que envolvem ações sociais, mas que para saber mais, fazem um convite a todos os leitores deste perfil para conhecer o trabalho deles e acompanhar nas redes sociais.

Um novo capítulo na história da humanidade está sendo escrito desde o início da pandemia, e nós, personagens dele, estamos tentando entender e nos adaptar enquanto participamos do processo. Em meio a tudo isso, a música, como os coletivos que percorrem a cidade, nunca para. Talvez em alguma viagem você seja uma rima.



*Fotos: Errol Flinn Junior

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