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  • Revista Alagoana

TEQUILLA BOMB: Choque, combate e festa

Por Lenine Oliveira (Colaboração para a Revista Alagoana)


Com várias direções chegando até um ponto central, como as ruas que se cruzam e as estruturas que as formam, os gêneros aqui como meros nomes facilitadores que formam o Tequilla Bomb são uma cidade. Desde a Jamaica e os sound systems, do ska com toda a história de combate e as raízes que se multiplicaram a partir dele, o choque com a eletrônica inglesa, o funk brasileiro, tudo isso batido e batendo, o Power Trio alagoano formado por Toninho ZS, Carlos Peixoto e Bruno Brandão é um frescor para o mormaço maceioense, é um “sistema de som, de denúncia e de elevação espiritual”.



Carlos Peixoto, Toninho ZS e Bruno Brandão. Imagem: Jader Ulisses



No dia 7 de setembro de 2011, no bairro do Village, se liga a aparelhagem do corpo formado pelos três. Se hoje estar na cena local é uma luta, artística e musicalmente, há mais de 10 anos não era melhor. Com uma proposta de levar o eletrônico do dub ao concreto das ruas, ocupando espaços com sonoridades marginalizadas, revelando os vários nomes que formam a música jamaicana que não reggae: ska, ragga, rocksteady… Isso tudo em Maceió, uma cidade em que a cena artística se limita a espaços específicos, fechados em si e em pequenos grupos, com formas mais específicas ainda e também pequenas de se fazer e consumir arte (o que vem mudando com o tempo, ainda bem).



Aparelhagem dos sound systems sendo erguida na Jamaica. Imagem: Pete Anderson


Por volta de 1950, na Jamaica ainda colonizada, quando começam a surgir os primeiros sound systems, o povo sente a necessidade de algo ainda sem nome que viria a ser os muitos caminhos musicais jamaicanos. O acesso a música era apenas aquilo que chegava: R&B, jazz, ou qualquer outro, todos eles vindos, ainda que em sua qualidade, de linguagens que não comunicavam o que queria comunicar o povo jamaicano. É então, em ocupações de ruas com os sons, utilizando de aparelhagens, caixas circulando na frente de casas estreitas, muito próximas umas das outras, uma floresta (e daí vem a selva de pedra que viria a se popularizar com Bob), que o povo jamaicano numa área menor que a de Alagoas, esse povo dessa pequena ilha com menos habitantes, hoje, que nosso estado, começa a perceber que a música deles podia algo mais: e conquistam o mundo.


Esse mesmo povo começa a organizar grupos que defendem os sons, defendem aquilo que os move, e aquilo passa a ser, além de sua festa, sua luta. A música não passa a ser, mas sim se revela e revela como toda arte está carregada de política. São inseparáveis.


Partindo de sons essencialmente combativos por suas histórias de luta, o próprio nome Tequilla Bomb é, em si, uma postura que parte contra as exclusividades que permeiam a selva de pedra, as opressões explícitas e maliciosas, sempre racistas, e isso tudo aqui, numa cidade de tradições coronelistas, numa cidade com principal avenida que leva o nome Fernandes Lima, ordenador da Quebra de Xangô que é um crime religioso irreparável. É encontro, como ska alcançando o punk, pontos coletivos em encontro, pontos de mudança.



Tequilla Bomb no Revoada de Cinema: festival de cinema das periferias de Maceió. 2022. Imagem: Lenine Oliveira


Foi em práxis que se formou o som do grupo, só depois de muito experimentar diretamente na pele, com o público respondendo nos shows, que surgiu o primeiro EP, Bomb Style em 2013. A primeira faixa revelará todo o futuro do grupo: “convocando todos pra lutar na coletividade… música de libertação / música marginal urbana / tomando conta da Babilônia”. Já na última, latino americana em seu título, inglesa em som com o dub fazendo pulsar o instrumental, “Adiós Amigos” fecha o EP diversa, remixada, ocupativa e enérgica como tudo que o grupo fará a partir de então.


Até então com dois álbuns, o primeiro deles é o Seja Luz de 2014. Paradoxalmente com seu título, o disco traz na capa a Praia da Avenida, uma praia que já foi elitizada em seu passado e hoje é esquecida. O segundo, Sistema e som, Denúncia e Elevação Espiritual, mostra que os movimentos sonoros do grupo, como a luta coletiva, não param. O elemento do funk é adicionado ao monte, a intensidade segue em mesmo pulso, em novos caminhos.


No último lançamento, Quebra de 2021, comemoração dos 10 anos do grupo, o EP tem caminho aberto com um funk batucada muito mais direto, alimentando a chama da luta com seus tambores e batidas, é um “Ponto de reparação”. A segunda faixa, “Balança o saco da pipoca”, com título que é frase anúncio de Toninho nos shows do grupo, quase um chamado, um convite a uma força para que se junte ao ritual do sound system, a pipoca em celebração, o povo, o som liberto, o som libertando. É a atualização de tudo do que vieram, “fazendo som no meio da rua / botando essa rapa pra dançar (…) / na perifa / muito talento / meu carnaval é o gole pro santo”. A JBL como aparelhagem, o “carnaval no meio da rua” reinterpretando qualquer espaço.


“Tem também uma ideia de quebrar… dançar. E quebra num sentido mais amplo, quebrar aquilo que aparentemente é normal… quebra de paradigmas, de valores, sair quebrando isso. Eu acredito que a parada do quebra que remete a ideia de conflito, assim… Acredito que as mudanças da sociedade elas só acontecem mediante conflitos… de ideia, né? Enfim”

Toninho ZS em entrevista ao Alagoas Musical



É disso tudo e muito mais que o grupo se faz, desde seu nome à última palavra do Quebra, contra a Babilônia que infecta Alagoas, mostrando com toda a beleza do som que a luta se faz também com festa.

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