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  • Revista Alagoana

O rio do corpo de Luciano e seus afluentes

Ator alagoano que, com poesia, conta e remonta o curso de sua vida até chegar às telas de cinema do Brasil


Texto por Bertrand Morais



Um homem é mesmo que um rio

Que sabe, depois que nasce,

Sua forma enquanto cresce

Pois conhece a rota sobre a qual caminha e faz-se*.


A matéria de capa do mês de julho da Revista Alagoana é sobre o alagoano Luciano Pedro Junior, um ser poético, que se inspira em trechos do poema acima e ao longo da matéria, para seguir seu curso de rio no mundo das artes cênicas.


Foto: Amanda Môa.

Nascido em Maceió, ele levou uma vida sem o glamour que, corriqueiramente, estamos acostumados a associar a atores de produções nacionais. Aliás, nem ele mesmo ao certo se via nessa posição cultural. Acreditava que por se considerar um bom comunicador, seu destino seria jornalismo. Ele tentou, mas viu seu curso do rio mudar de direção.


“Através de provocações teatrais de um professor no meu ensino médio, eu conheci a companhia alagoana fulanos e cicranos, a qual me fez estudar bastante teatro” relembra Luciano e complementa menos empolgado “porém me esbarrava com as preocupações de familiares de que a vida teatral não dá grana e, tampouco, estabilidade”.


Em Arapiraca, no agreste alagoano, articulava-se a filmagem do primeiro curta-metragem com direção e roteiro de Leandro Alves, intitulado ‘Avalanche’ (2017). Seria mais uma das produções audiovisuais, sem o glamour hollywoodiano, oriundas do Núcleo do Audiovisual de Arapiraca - NAVI. Luciano ainda cursando o ensino médio fez o teste para um dos personagens na trama, a convite de um amigo, e passou.


Cena do curta alagoano Avalanche, com direção e roteiro de Leandro Alves.

Após o primeiro contato com um set de filmagem e ainda cursando jornalismo, um presente do pai de Luciano, mesmo com certa resistência à ideia do filho em ser ator, deu-lhe uma certeza: prestar vestibular novamente. A aprovação no curso de teatro na UFPE chegou - trazendo novos desafios – mudando seu curso de rio.


Como um homem um rio não pode ser pressentido

Pois adiante pode ser diverso

Do antecedido*.


Chegara ao Recife sem referências familiares e com pouco recurso financeiro. Encarar o desconhecido nos primeiros meses exigiu-lhe estratégias como a de vender brigadeiros na universidade. Aos poucos, algumas pequenas participações cênicas foram surgindo e lhe rendendo alguma grana maior.



Já em Caruaru, ainda em terras pernambucanas, as gravações para o filme Carro Rei de Renata Pinheiro, o qual foi o grande vencedor como melhor filme brasileiro do Festival de Cinema de Gramado 2021, trouxe às telas dos cinemas pelo o Brasil, a atuação de Luciano, como protagonista. O personagem é potente e, nesta obra audiovisual, bebe da fonte de umas maiores referências nacionais nas artes cênicas: Matheus Nachtergaele, conhecido dentre outros filmes, por seu papel em O Auto da Compadecida.


Cena do filme Carro Rei, de Renata Pinheiro.

Luciano cita o texto “Rios sem discurso” do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto que diz ‘um rio precisa de muito fio de água para que os poços se enfrasem; tomando o rio seu discurso e curso’, e reflete trazendo para si “passei a refletir sobre a coletividade, o encontro com o outro, a fluidez contra a rigidez da sociedade”. Nasce então, em abril, a oficina O Rio do Corpo, ministrada até então na Escola Técnica de Artes – ETA/UFAL.

A oficina é um verdadeiro encontro com o nosso eu íntimo, que se desnude através de provocações expressas em movimentos corporais, ora na solitude ou em coletividade. Participei da mais recente e, por vezes, me senti muito vulnerável e enrijecido em expressar-me livremente, mas na medida em que o ambiente vai entrando numa única sintonia, o sentimento de acolhimento vai nos inundando. Fiquem atentos nas próximas edições!


Participantes (incluindo eu, Bertrand, no canto direito inferior da foto e Luciano ao centro) na oficina O Rio do Corpo, do mês de julho.

Se você perdeu a atuação de Luciano em Carro Rei nos cinemas, em breve terá a oportunidade de vê-lo de volta às telonas. Desta vez, com participação especial numa trama que promete envolver mistério com cenários nordestinos e protagonismo da compositora, cantora e atriz Gaby Amarantos, interpretando a Serial Kelly, ainda este ano nos cinemas.


Mas um homem não é nunca seu fim

Mesmo se agindo,

Nunca se encontra em si, termina sempre mais amplo

Tal em mar se acaba um rio*.


* Trechos do poema Busca da Identidade entre o Homem e o Rio, de José Carlos Capinan.


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